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Mais famoso que Fidel

Em Cuba, modelo bom é modelo velho

por Laís Duarte

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O dia amanhece, e Reinaldo Buellas atravessa a Plaza de Armas, em Havana, a passos lentos. Não que seja uma exigência do trabalho chegar cedo ao batente. Aos 88 anos, esse senhor de barba branca, camisa surrada e boina à Che Guevara não precisa bater ponto. Senta-se na calçada, em frente ao Palácio Municipal, por gosto e conveniência. Com um charuto em mãos, completa o figurino de quem se sabe personagem da cidade.

Em Cuba, ou fora dela, Buellas é onipresente. Embora o leitor nunca tenha conversado com ele, provavelmente já cruzou com sua foto na livraria mais próxima, caso frequente as estantes de manuais de viagem. A imagem de Buellas abunda em agências de turismo, em lojinhas de aeroporto e na mala de turistas que, dia após dia, são despejados na ilha. Desde novembro de 2006, ele é capa do Lonely Planet, o guia preferido dos viajantes mais descolados.

Como todos em Cuba, Buellas recebe, do governo, uma cesta básica com alimentos e algum produto de higiene, além de uma aposentadoria pelas décadas de serviço prestado nas marcenarias do Estado. Complementa a renda oficial de 15 pesos cubanos - o equivalente a 30 reais - com o bico de modelo fotográfico. Barba, charuto, rugas (e um Lonely Planet do lado, só para deixar claro quem é) compõem a combinação perfeita para o turista que aprecia a pobreza exótica e primitiva do Terceiro Mundo.

O idoso diz ter sido clicado milhares de vezes por gente de todos os cantos. Numa dessas, acabou parando na capa do guia de viagens. Inteirou-se do fato dois anos depois, quando foi presenteado com um exemplar em italiano por um grupo de estrangeiros. Depois, viria novo trabalho. Em 2009 estampou a capa do livro Sobre Cubanos e uma Ilha, das jornalistas paulistanas Vanessa Oliveira e Silvia Song. Em troca do olhar abandonado mas firme recebeu alguns pesos. Está satisfeito. "É propaganda para mim. Fora da ilha sou mais famoso que o comandante Fidel", imagina.

Reinaldo Buellas nunca recebeu direito de imagem pelas publicações. Ainda assim, a notoriedade serviu para elevar seu cachê. Hoje, só se deixa fotografar mediante pagamento mínimo de 1 peso cubano. "Mas teve gente que me deu 10 pesos", lembra, com alegria. Vez por outra, a gorjeta vem acompanhada de um mimo importado: já levou para casa chocolate suíço, camiseta francesa e café brasileiro. Parar para conversar, ninguém pára. "As pessoas vêm de longe para ver as belezas de Cuba. Não querem ouvir um velho", justifica, conformado com seu papel de paisagem.

Se ouvissem, conheceriam um detalhe interessante: o senhor que estampa a capa do Lonely Planet Cuba Travel Guide, na verdade, não é cubano.

Buellas nasceu nas Ilhas Canárias, nos idos de 1921. Embarcou para Cuba oito anos depois, na companhia do avô, que buscava trabalho em plantações de tabaco. Traz até hoje a pele marcada pelo excesso de sol dos tempos de labuta na roça. Durante a Segunda Guerra Mundial, foi obrigado a deixar a fazenda para engrossar as tropas da ilha no combate aos nazistas. Na frente de batalha, lutando lado a lado com os americanos, conheceu a Europa. Regressou em 1946 e, pouco tempo depois, continuou a guerrear - dessa vez, contra novo inimigo, o ditador Fulgencio Batista. Nunca mais deixou Cuba.

Buellas conta ter feito parte da coluna invasora Antonio Maceo, comandada por Camilo Cienfuegos até 1959, quando as tropas revolucionárias tomaram o poder. "O governo de Fulgencio Batista sequestrou, matou e torturou cubanos. Usamos armas para impor o socialismo e acabar com o sofrimento do povo", discursa, em tom oficial. Com os revolucionários no comando, fazendas, indústrias e hotéis foram estatizados. Incluíram-se, aí, as terras de sua família. Para esquecer as perdas, Buellas tratou de cuidar da própria vida. Casou-se, teve dois filhos, virou marceneiro.

Enquanto conversa, ele é interrompido por um casal de franceses (de pele tostada, como cabe aos turistas de bem). Com câmeras em punho, pedem, com gestos, para tirar uma foto. Buellas entende a mensagem. Levanta o charuto, ajeita a boina e posa para mais dois estrangeiros que levarão seu rosto para longe. Os franceses retribuem com uma nota de 1 peso - a décima do dia. Encerrado o expediente fotográfico, o aposentado arrecadou, à base de sorriso e baforada, mais da metade do que recebe em um mês do governo. Com o excedente, paga as despesas da casa, compra comida e, vez por outra, um presentinho para as duas netas e os seis bisnetos. Nesse passo, firma-se na carreira de top model da ilha.

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