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cena americana
Guerra gravada na pele
DORRIT HARAZIM
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Uma documentarista americana produziu um retrato intimista e original do impacto da guerra sobre a atual geração de recrutas. Como cenário, um estúdio de tatuagens a poucos metros da maior base militar do país

No coração do estado americano do Texas, entre Austin e Waco, esparrama-se a maior base militar dos Estados Unidos, Fort Hood. Em extensão (878 quilômetros quadrados) e população (quase 65 mil homens e mulheres das Forças Armadas, somando-se os agregados), Fort Hood é um mamute que exala cheiro de guerra por todos os poros. Há nove anos, levas e mais levas de recrutas estreantes partem dali para se juntar às tropas dos Estados Unidos no Iraque e no Afeganistão. Outros retornam à base no Texas para um segundo, terceiro ou mesmo quarto turno na frente de combate.

Quem está em Fort Hood carrega embaixo do uniforme doses variáveis de ansiedade, patriotismo, amargura, trauma ou valentia. Foi ali que, na manhã de 5 de novembro passado, um major psiquiatra, às vésperas de ser despachado para a guerra, teve um surto psicótico e fuzilou treze pessoas, além de ferir outras trinta.

Desde então, o Pentágono procura mapear a dimensão do desequilíbrio emocional que se infiltrou em seus quartéis. Reação um tanto tardia, considerando-se que desde as primeiras levas, em 2002, 1,2 milhão de soldados americanos já passaram pelo choque de combater numa terra mais do que estrangeira.

Coube a uma documentarista e professora de cinema da Universidade do Texas, sem qualquer vínculo com o universo militar, fazer um registro inédito do estado d'alma dos que partem e retornam da guerra. Ao longo de quase quatro anos, entre 2005 e 2009, Nancy Schiesari frequentou periodicamente um estabelecimento com ares de loja de conveniência de beira de estrada, que fica a poucos metros da entrada principal de Fort Hood. Um sinal luminoso kitsch em forma de estrela informa que funciona ali um estúdio de tatuagem, o River City Tattoo. Desde que abriu as portas cinco anos atrás, a dona da loja, Roxanne Willis, quase não consegue fechá-las - mesmo noite adentro há sempre mais um soldado atravessando a rua para marcar o corpo com suas fantasias e assombrações.

Com uma pequena equipe essencialmente feminina, Nancy Schiesari ligou a câmera e filmou. A diretora, formada em arte e cinema pelo Royal College of Art, de Londres, e veterana de quase trinta documentários, sabia estar testemunhando um pedaço da história de uma geração. Assim nasceu o extraordinário Tattooed under Fire (Tatuados sob Fogo), exibido em novembro pela PBS, Public Broadcasting Service, a rede pública de televisão dos Estados Unidos.

O filme documenta o que leva jovens aquartelados em Fort Hood a atravessar a porta de madeira vermelha do estúdio, e a fazer pedidos estranhos à equipe da senhora Willis. Eles se despem da farda e oferecem o corpo para nele registrar os anseios mais pessoais. Diante da impessoalidade do uniforme, que os nivela perante o inimigo e a instituição militar, os soldados vão ao River City Tattoo para garantir que sua individualidade fique impressa de forma indelével, independentemente do que venha a lhes acontecer do outro lado do mundo. "Frente ao anonimato e à morte eventual, a tatuagem satisfaz a necessidade de expressão do recruta", explica Nancy Schiesari.

Ali ninguém escolhe entre as centenas de figuras ou desenhos que forram as paredes do estúdio. Cada recruta chega com sua própria ideia e a desenvolve com o artista tatuador - ele mesmo um veterano de outras guerras. Algumas das criações mais elaboradas levam de seis a oito horas para serem executadas, a 150 dólares a hora. Durante as sessões, o tatuador faz as vezes de psicólogo e confessor. "Tem cara que nunca me viu antes e acaba confessando um assassinato", conta no filme um dos tatuadores. Estima-se que 95% dos soldados que integram as Forças Armadas americanas tenham pelo menos uma tatuagem no corpo.

Do elenco captado por Nancy Schiesari, Tattooed under Fire estreita o foco em seis jovens recrutas (quatro homens e duas mulheres), todos em torno dos 21 anos de idade. Travis, Jonathan, Consuelo, Anthony, James e Latoya são filmados pela primeira vez em 2005, poucas semanas antes de seguirem para a guerra no Iraque. A maioria escolhe impregnar o corpo com figuras de demônios, tanques, lobos, caveiras, arte tribal, marcial ou qualquer outra imagem que os ajude a se sentirem corajosos diante do medo e da morte em potencial. 

Como escudo de intimidação, um dos personagens oferece a pele do pescoço para gravar os dizeres Trucide seus inimigos. "Eles pensarão que somos invencíveis", diz o jovem dono do pescoço, referindo-se aos inimigos. A localização da tatuagem foi milimetricamente calculada para não ultrapassar a linha do colarinho da camiseta usada sob o uniforme - o que violaria uma das normas do Exército americano.

O recruta Travis foi mais radical. Instruiu o artista tatuador a esculpir seu bíceps com a figura de um feto preso dentro de um liquidificador. Queria se proteger por meio de uma tatuagem deliberadamente repulsiva. "Esse bebê não sabe se vai ser triturado, estraçalhado, mutilado - uma possibilidade do que pode vir a acontecer comigo", explica com naturalidade.

Soldado do corpo médico, formado em enfermagem, Travis tinha se alistado aos 23 anos para escapar de uma encrenca com a Justiça - fora apanhado mercadejando medicamentos. "Era a guerra ou a prisão", disse. Às vésperas de partir para Bagdá, comentou com a namorada que provavelmente mataria uns dois ou três inimigos, e morreria. Mas o desfecho foi outro. Quase no final de seu primeiro turno de quinze meses, uma garotinha iraquiana de 3 anos de idade, que só conseguia gritar, agarrou-se ao seu braço tatuado. "Foi o meu despertar para o que era realmente a guerra", contou, ao retornar a Fort Hood e se preparar para um segundo turno. "Hoje não quero mais chocar ninguém. Mas também não quero esconder minha visão da vida num liquidificador - ela faz parte do meu storyboard." Apenas adornou a tatuagem original do feto com uma coroa de rosas vermelhas.

Josh, um sentinela de 20 anos, escolheu cobrir o dorso inteiro com figuras da mitologia nórdica, invocando assim a proteção de seus ancestrais

 

 
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