Formado em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e professor de inglês e português, além de jornalista, o carioca Guto Jimenez, de 47 anos, passa catorze dias do mês numa plataforma de petróleo entre o litoral fluminense e o capixaba. As outras duas semanas ele fica em terra firme, dividindo o tempo entre a filha adolescente, a namorada, a mãe, a prática de skate e a conclusão do curso de técnico de segurança do trabalho.
Rádio-operador da empresa americana Pride International, cuja plataforma marítima Pride Brazil foi contratada pela Petrobras, Guto Jimenez desembarcou na profissão por engano. Tinha sido locutor e radialista, gostara do trabalho, e por isso se inscrevera num curso de rádio-operação - pensando que aprenderia operação de áudio. "Acabei fazendo o curso até o fim, passei na prova da Anatel e estou no ramo desde 2006", explica ele. Seu salário oscila entre 3 e 4 mil reais
TERÇA-FEIRA, 6 DE OUTUBRO_Acordei às cinco da manhã para estar no Galeão a tempo de pegar o voo das 7h10, com destino a Vitória. Havia deixado a mochila pronta na véspera - duas mudas de roupa, cuecas, meias, notebook, nécessaire, caderno do curso e um livro (Mate-me Por Favor, primeira parte).
Chegando a Vitória, fui até o saguão exclusivo de embarques da indústria offshore. O movimento de helicópteros é bem mais tranquilo do que o do aeroporto de Macaé, onde estamos acostumados a embarcar. Os procedimentos são os de rotina: identificação, pesagem, revista e lacre dos celulares - os nossos telefones têm suas baterias retiradas e são lacrados numa embalagem plástica, que só pode ser aberta na volta, e mesmo assim à vista do segurança do aeroporto. Embora não haja sinal disponível na plataforma, a frequência das ondas eletromagnéticas poderia interferir com alguns equipamentos. Sem falar que praticamente todo celular hoje em dia vem com câmeras integradas, e fotos são proibidíssimas.
A revista a que somos submetidos é um pouco mais específica. Qualquer material eletrônico só pode ser embarcado com uma RT (Requisição de Transporte) autorizando o seu porte e transporte. Para embarcar com o meu notebook, por exemplo, preciso de uma. É proibido levar bebidas alcoólicas e remédios de receita controlada que exijam acompanhamento médico constante.
O tempo de voo do helicóptero até o campo de Golfinho (Latitude: 21º 10' 26" S; longitude: 039° 57' 01" W) não chega a trinta minutos. Nem cochilei de tão rápido que foi.
Ao chegar à plataforma, fui pegar algumas roupas velhas que já moram no meu armário do vestiário, e fiz meia hora de ergométrica para adequar o metabolismo ao ambiente com ar-refrigerado, o qual abomino e não uso em casa. No primeiro dia a bordo, sempre trabalho em meio turno (das 18 horas à meia-noite) e descanso outro tanto (da meia-noite às 6h). Me atualizo com as novidades abrindo a caixa do e-mail corporativo. Somos dois rádio-operadores de cada sexo, e minha back, ao me transmitir o posto, sempre conta as últimas novidades. Mulheres a bordo exercem os mais variados cargos: desde taifeiras (faxineiras e arrumadeiras) e comissárias (chefes da hotelaria) até engenheiras de máquinas e DPO (Operadora de Posicionamento Dinâmico, na sigla em inglês). Num ambiente onde há muitos estrangeiros, mulheres são vistas mais como força de trabalho do que seres do sexo feminino.
Sempre que posso, ouço um som baixinho no estilo música ambiente: sou um sujeito movido a música. Desta vez, trouxe várias faixas da banda Ira gravadas no pendrive.
7 DE OUTUBRO-_A capacidade dessa plataforma SS-57 (o SS vem de "semissubmersível") é de 130 tripulantes, mas normalmente somos entre 105 e 115 a bordo, divididos em quatro turmas. Os brasileiros trabalham em turnos de 14x14 dias, e os estrangeiros, de 28x28 dias. A empresa americana para a qual trabalho tem oito plataformas em operação no Brasil, num total de 1 500 funcionários, entre embarcados e os que trabalham na base. Quanto aos funcionários da Petrobras e terceirizados, o efetivo depende das operações que estejam sendo executadas a bordo, pois há técnicos específicos para cada fase da empreitada.
A palavra "rádio-operador" é um termo antigo. Somos o elo de comunicações entre a plataforma e outras embarcações, unidades offshore, e com o pessoal de terra. Devido ao alcance do sinal, os moduladores de rádio (VHFs marítimo e aeronáutico, e o SSB/MF-HF) são usados para a comunicação com os navios de produção, as embarcações de suprimentos e aeronaves. Também somos treinados para operar o sistema GMDSS (Global Maritime Distress Safety System, ou sistema de segurança marítimo global de emergências), que só é usado em caso de incidente grave a bordo.
Aquela história de que "o capitão é sempre o último a abandonar o barco" não se aplica a meu universo, pois são os rádio-operadores que saem por último de uma plataforma, por levarem consigo alguns sistemas de comunicação portáteis para acionamento das equipes de resgate.
Os meios de comunicação mais usados offshore são o telefone e a internet. Muitos procedimentos de serviço são combinados através de ligações com os vários setores de terra, mas temos o cuidado de registrar essas comunicações de trabalho também em e-mail - é bom se precaver do inevitável "Não foi bem isso que eu te passei via fone".
O pessoal que largou ao meio-dia ouve no telejornal que a Receita Federal liberou mais um lote de restituições de imposto de renda, a despeito das notícias envolvendo uma suposta "pendura" que estaria sendo preparada pelo governo. Consultei um dos três computadores disponíveis para uso geral e recebi a boa-nova de que a minha restituição está agendada para o próximo dia 15. Vai dar um alívio no meu saldo bancário, que já está no roxo há alguns dias.
Depois do meu horário, resolvo não ir à academia, porque dormi pouco na noite anterior. Faço só uma sauna, para capotar quando deitar na cama. Antes, ainda subo um post sobre paper toys no meu blog