Difícil de entender, a mãe da menina.
Dos quatro adultos da casa era a mais recolhida. Não que fosse fraca. Era muito forte, até. Mas a força dela ficava toda emborcada para dentro, uma criança não conseguia ver de jeito nenhum.
História, ela não gostava de contar e nem sabia, também. Quando o pai ou a avó por alguma razão não podiam, ela, num esforço danado, coitada, pegava um livro escrito em inglês, ficava lendo e traduzindo enquanto lia, parando muito para ajustar as palavras ao melhor sentido. Quer dizer, aquela atenção toda voltada para o texto não tinha a menor graça e nem o ritmo entrecortado da narrativa atendia ao desejo da menina.
Paciência? Quase nenhuma! E ai dela se chegasse perto da mãe, concentrada na tese!
Também não gostava se a menina reclamasse depois do banho, quando sentava na cama e encaixava a pobre em pezinha entre os joelhos, para fazer cachos no cabelo molhado. Ficar bonito até que ficava, mas quem estava interessada naquilo? A menina queria era sair para a rua e brincar com os amigos! Mas tinha de aceitar com sabedoria de Jó, numa inversão milimetricamente proporcional à pouca paciência da mãe:
- Ainda falta muito?
- Fica quieta, menina!
Certa vez pôs fogo, com os amigos, nas pilhas de jornal velho, permanentemente amontoadas na reentrância entre um dos canteiros do jardim e o escritório do pai, bem embaixo do terraço para onde abria a porta de entrada.
Sentindo cheiro de queimado e vendo a fumaça chegar pela janela, a mãe saiu feito uma bala de casa, expressão de fúria e pito em altíssimo tom. A menina - para quem ela e os amigos não estavam fazendo nada de mais, só brincando - ficou passada, com vergonha daquele espetáculo na frente de todo mundo. Por acaso a mãe não via que aquele foguinho à toa não dava para incendiar casa nenhuma? E depois, ela não era de aprontar hecatombe e a mãe devia saber! Nunca tinha quebrado nem braço, nem perna, e nem levado ponto no queixo; estragado coisa de valor ou feito nada, mas nada mesmo, que não achasse remédio ou conserto; daí que não precisava daquele Deus nos acuda todo! E também não era justo ser obrigada a ouvir, dias a fio, a mãe contando para as visitas como a filha quase tinha posto fogo na casa! Logo ela, sempre empenhada em calibrar o alcance da própria ousadia! Só para dar um exemplo: na fazenda do avô, das poucas vezes em que caíra do cavalo - três -, caíra de pé, sem se machucar. E isso, só porque o Três Contos tinha o trote muito duro e, quando começou a envelhecer, deu para empacar de repente. Não havia peão que aguentasse em cima!
E também por falta de paciência, nas amigdalites de todos os meses, a mãe não parava perto da cama tanto quanto a menina queria. Nem adiantava ficar doente. A atenção da mãe estava sempre pregada no pai, nos livros e nas ideias que apareciam na cabeça dela, sem parar. A propósito de qualquer coisa: uma leitura; um filme ou uma peça de teatro; trabalho de aluno; observação do jeito das visitas; alguma lembrança ou o sonho da véspera. A mãe era uma máquina de pensar de combustão incessante. Talvez o que mais gostasse e melhor fizesse fosse expor as ideias, sempre originais, sempre brilhantes. Até a menina queria ouvir, mesmo sem entender direito o sentido completo do que ela contava para o pai o tempo todo, porque eles só paravam de conversar, um com o outro, para ler e trabalhar no que estivessem escrevendo.
A mãe preparava as aulas numa mesa pequena de madeira marrom-escura, pernas finas torneadas com elegância, da mobília de uma das avós dela. Nos primeiros anos das lembranças da menina, essa mesa ficava no quarto dos pais e só um pouco mais tarde desceu para o escritório, onde passou a dividir o espaço com a escrivaninha.
Todas as noites, depois do jantar, quando o pai não estava dando aula na faculdade e não tinha visita jantando com eles, os dois desciam para o escritório e ficavam lá, na conversa e no trabalho, sempre juntos, até tarde.
Vez ou outra, a menina levantava no meio do primeiro sono e, semiadormecida, descia maquinalmente os três andares para encontrar os pais no de baixo, onde sabia que iam estar. Aí a mãe - era sempre a mãe- punha ela no colo e levava de volta para a cama dizendo firme, com doçura, que a noite já ia alta e não era hora de criança ficar andando pela casa.
Nesse tempo, a avó do interior costumava mandar para a menina uns vestidos muito bonitos, feitos por ela mesma. Quase sempre tinham rendinhas, enfeitando. Pois não é que a mãe, quando saía com a menina para alguma festa, frisava as rendinhas em tiotê? Pegava aquela espécie de tesourona sem ponta nem corte, esquentava como se fosse ferro elétrico e curvava centímetro por centímetro da renda, até dar conta de toda a extensão, que não era pouca. Fazia ela mesma, as empregadas não iam saber.
Volta e meia, também costurava para a filha. Modelos mais modernos com pouco adorno e caimento impecável. Os da avó tinham muita graça e bordado, mas nem de longe a perfeição de acabamento dos da mãe, atenta com o avesso tanto quanto com o lado direito da roupa. Cortada e costurada com rigor igual ao que punha nos ensaios que escrevia. Por diversas vezes chegou a coser saias, blusas e vestidos inteiros à mão, sem usar um pontinho sequer de máquina de costura.
Um dia o colégio pediu que os alunos levassem exemplos de vestimentas do século XVIII, para ilustrar uma dada matéria. Então a mãe comprou uma bonequinha de celuloide cor-de-rosa e fez para ela um vestido que era uma galanteza, de cetim florido sobre o