diário
Parece que falta oxigênio no ar
DANIEL SANTIAGO
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Recém-aposentado da Prefeitura de Recife, Daniel Santiago, de 70 anos, recebeu uma missão da esposa: organizar as gavetas, prateleiras e pilhas de materiais acumulados. Dentre os vários durante a faxina, encontrou um caderninho de quase meio século de idade, com registros do ano que passou em São Paulo à base de pão e banana. Também achou os desenhos com que ilustrou sua temporada paulistana.

Nascido em Garanhuns, Pernambuco, Santiago aprendeu a desenhar ainda menino, com um tio, e não parou mais. Aos 17 anos, ingressou na Aeronáutica e foi transferido para Salvador - onde prestou, por curiosidade, um concurso para desenhista publicitário nas lojas Mesbla. Foi contratado.

"O emprego não me prendia, eu tinha acabado um namoro: resolvi conhecer São Paulo", disse. Pegou a sacola da Aeronáutica e nela enfiou um par de botas, umas poucas roupas, um casaco príncipe de gales, peças de xadrez e matrizes de xilogravura. No bolso, o equivalente a 20 reais - e o caderninho que um colega havia lhe dado em Salvador.

Não fosse pelo mal-estar, causado pelas mais de quarenta horas de viagem de ônibus, ele provavelmente não teria começado este diário. "Eu tinha uma tendência de só anotar coisa ruim", conta. "Quando acontecia uma coisa boa, eu deixava para depois, e esquecia. Eu pensava em detalhar tudo, futuramente."

 

Sexta-feira, 11 de novembro de 1966_Primeiro dia em São Paulo. Parece que falta oxigênio no ar. Tive enjoo durante todo o dia. No começo da noite já estava tudo em ordem, tive apetite.

12 de novembro_Acordei cansado. Suor, sede. Me mudei do Hotel Tatuí para a Hospedaria Tupinambá, de frente para o cavalo do Marechal Deodoro. Almocei uma pizza com um copo duplo de caldo de cana. Saí em exploração de reconhecimento pelo vale do Anhangabaú, começando pela rua Santa Ifigênia. Até agora, o que há de mais antipático são o cheiro de borracha das sandálias japonesas e a fala de certas pessoas.

Fui ao correio mandar alguns postais e, grande coincidência, encontrei um amigo pernambucano, o Moacir. Nos conhecemos na Base Aérea do Recife, quando operei do joanete. Ele também estava internado, com um ombro deslocado. Conversamos durante horas, encontramos outros amigos dele, tiramos retratos. Comi de novo pizza com caldo de cana no jantar. Dormi mal. Cama horrível, cobertores fedorentíssimos. No quarto dormiam mais quatro rapazes, que chegavam acendendo a luz de duas em duas horas, até de manhã.

13 de novembro_Faz um frio bom como em Garanhuns. Suco de laranja, pão com manteiga, café com leite. Comprei O Estado de S. Paulo, engraxei as botas. Vou à praça da República ler o jornal. Chove fininho: ninguém se importa, só eu. Os pombos davam um espetáculo. Uma jovem mãe de saia justa, joelhos redondos e sapato alto estava agachada junto a um filhinho que admirava um pombo a bicar pipoca. Eram quatro seres deslumbrados: o pombo com a pipoca, o menino com o pombo, a mãe com o menino, e eu com a mãe do menino. Almocei macarrão com ovo. Jantei média com pão. Cama fedorenta. 

14 de novembro_Primeiro dia de atividades. Vou de calça preta de Nycron, bota marrom engraxada, gravata e paletó. Foi uma miséria! Negativo em todo canto. [Depois eu soube que era assim porque eu dizia que morava na Hospedaria Tupinambá. As recepcionistas das agências de emprego sorriam amarelo. Era o pior endereço de São Paulo: baixo meretrício, malandragem, drogas.] Tarde péssima, estou sentimental. Chorei ao ver uma banda passar tocando a música de Chico Buarque.

Depois de observar uma moça bonita por mais de uma hora, perguntei se ela queria ajuda. Ela estava sozinha numa parada de ônibus, embaixo do viaduto do Chá, era quase meia-noite. Ela respondeu que não, eu saí. No mesmo instante, chegou o namorado atrasado. Ainda vi a bronca que ela deu, e ele pedindo desculpa.

Morri de rir com uma piada na Folha de S.Paulo. O juiz pergunta ao acusado: "Mas por que o prenderam?" "Porque eu não corri o bastante, sr. Juiz." Saúde: boa. Peso: 57-58 quilos. Jantar: média com pão.

16 de novembro_Almoço: pizza e caldo de cana. Jantar: idem. Alegria do dia: achei 300 numa calça velha, que vesti para ir ver as vagas em uma oficina de pintura. Acertei o negócio: 700 a hora, a partir das 21 horas. O serviço é pintar estatuetas de gesso à noite, quando o patrão chega do trabalho.

Tomei o ônibus errado e fui parar no Jardim Japão. Quando caí na cama fedorenta, já eram duas da manhã.

17 de novembro_Uma semana em São Paulo. Bem-estar geral. Peso: 57 quilos. Dinheiro: 4 mil. Acordei às 11 horas. Almoço: esfirra na praça da Sé. Fui até lá para tirar os documentos para cobrador de ônibus, mas a dona exigiu que eu pagasse 10 mil pelo boné. A exigência da garantia era porque muitos candidatos desapareciam com o boné e não assumiam o emprego. Desisti. Às 13 horas comprei um jornal e fui à praça da República. Como é bonita!

Consegui um emprego como auxiliar de escritório. Seu Felipe, o português chefe do escritório, me sugeriu que trocasse de pensão. Encontrei a de dona Santinha, uma senhora de 50 anos de idade, mais ou menos. Mas preciso pagar 30 mil, adiantado. À noite, tentei vender uns livros, mas não quiseram comprar.

18 de novembro_Ainda na Hospedaria Tupinambá, na Rio Branco. Acordo cedo, tomo banho frio, faço a barba. Junto do banheiro, uma senhora gorda e loura, com sotaque português, lavava os lençóis encardidos num molho horroroso e fedorento. Café com leite, pão. Tomei o ônibus para o trabalho, primeiro dia! O serviço é chato, burocracia. Datilografia, arquivo, matemática, correspondência etc. Acho que não vou comer nada na hora do almoço, só tenho 300. Só tomei um cafezinho ao meio-dia e outro às quatro da tarde, com uma paçoca de amendoim. Não sei como vai minha saúde, mas me sinto bem, com bom

 

 
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