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ficção
Sobre o êxodo
Pela primeira vez o monumento não estava decorado com excremento de pombo, talvez porque até as pombas tivessem partido
MARIO BENEDETTI
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É óbvio que o êxodo começou por motivos políticos. No exterior, os jornalistas começaram a escrever que a atmosfera daquele paisinho era irrespirável. E era mesmo difícil respirar. Os jornalistas estrangeiros continuaram escrevendo que ali a repressão era monstruosa. E realmente era monstruosa. Mas o fato de essas verdades terem sido difundidas por jornalistas estrangeiros levou as autoridades a uma invocação inflamada do orgulho nacional. O erro do governo foi, talvez, ter posto a invocação na boca do presidente, já que, nos últimos tempos, sempre que a voz e/ou imagem do primeiro mandatário aparecia na tevê ou nas rádios, as pessoas corriam para apagar seus aparelhos. De modo que a população jamais chegou a se inteirar da invocação do orgulho nacional feita pelo governo. E, em consequência, continuou partindo.

Primeiro se foram todos os suspeitos que estavam soltos. Depois começaram a ir os parentes e os amigos dos suspeitos (presos ou soltos). No início, apesar de serem muitos os que emigravam, sempre era maior o número dos que iam aos portos e aeroportos para se despedir. Mas o dia em que um barco com mil emigrantes zarpou diante do aceno de apenas 24 pessoas, o fato insólito ficou registrado na indiscreta câmera de um fotógrafo estrangeiro, e a publicação de tal testemunho numa revista de grande circulação internacional provocou uma nova invocação patriótica do presidente, e, em consequência, o momentâneo e preventivo apagão dos poucos aparelhos de rádio que ainda tinham ouvintes e das escassas telas de tevê que ainda tinham telespectadores. O mais curioso foi que o governo não pôde punir esse novo hábito, já que, a partir da crise do petróleo, havia exortado a população a não poupar sacrifícios em prol da economia do combustível e, portanto, de energia elétrica. E que maior sacrifício (dizia o pretexto popular) que se privar da esclarecida e esclarecedora voz presidencial? Por isso, dessa vez, o povo também não ficou sabendo que seu orgulho pátrio havia sido invocado pelo chefe do governo. E continuou partindo.

Quando todos os suspeitos que estavam soltos, mais os seus amigos e familiares, emigraram em sua quase totalidade, começaram então a partir os que passavam fome, que não eram poucos. A última pesquisa do Gallup tinha registrado que 72,34% das pessoas passavam fome, dado importante sobretudo quando se sabe que os 27,66% restantes eram compostos, em sua maior parte, por militares, latifundiários, banqueiros, diplomatas, voluntários do Corpo de Paz, mórmons e agentes da cia. O número de famintos que emigraram representou um contingente tão ou mais importante do que o de suspeitos e de suspeitos de serem suspeitos. Mesmo assim, o governo se fez de desentendido e, como contrapropaganda, começou a difundir, pelos canais e emissoras oficiais, um programa alimentar de emagrecimento.

Certo dia circulou o rumor de que na Austrália havia uma grande demanda por trabalhadores especializados. Imediatamente cerca de 30 mil operários embarcaram rumo à Oceania, cada qual com sua mulher, seus filhos e sua especialização. Sabe-se que, em qualquer lugar do mundo, os grandes empresários captam rapidamente as situações-chave. Os do paisinho também e, ao compreender que suas fábricas não poderiam continuar produzindo sem a mão de obra especializada, desmontaram velozmente seus planos e parques industriais, e se foram com máquinas, dólares, musak, família e amantes. Em alguns poucos casos, deixaram no paisinho um único funcionário para apresentar a liquidação dos impostos, mas não deixaram ninguém para pagá-los.

Outro dia circulou o rumor de que, também na Austrália, havia uma grande demanda de serviço doméstico. Imediatamente, embarcaram para Sidney 40 mil empregadas, mucamas etc., incluído no et cetera um ex-mordomo que estava sem trabalho desde o sequestro do embaixador britânico. Nas grandes famílias da oligarquia do gado, as senhoras com quatro ou seis sobrenomes também captaram rapidamente a situação e, ao compreenderem que sem serviços domésticos elas mesmas teriam que cuidar da comida, da limpeza, das roupas (as lavanderias e as tinturarias já haviam emigrado há meses), da higiene das latrinas e pias, convenceram seus maridos a organizar às pressas a mudança familiar para algum país medianamente civilizado, onde, ao apertar um botão, serventes que falam inglês, francês e que não têm nem piolhos nem filhos se apresentam com prontidão. Por aqui, na melhor das hipóteses, ao se apertar o botão, só apareceriam os piolhos. E não se sabia por quanto tempo.

Há que reconhecer que os militares foram os que ficaram até o final. Por disciplina, claro, e também porque recebiam soldos suculentos. Seu enraizamento os fez emitir, em determinado momento, um comunicado especialmente otimista, no qual se assinalava que, no último ano, o número de pessoas que havia sofrido acidentes de trânsito caíra 35,24%. Os jornalistas estrangeiros, com sua habitual malevolência, tentaram minimizar a evidente conquista, dizendo que ela não constituía mérito nenhum já que havia cada vez menos gente para ser atropelada em território nacional. O único jornal que reproduziu esse comentário insidioso foi fechado de forma definitiva.

Sim, os militares (e os presos, claro, mas por outras razões) ficaram até o final. No entanto, quando o êxodo começou a ganhar contornos alarmantes e os oficiais descobriram que estava ficando cada vez mais difícil encontrar gente jovem para ser submetida à tortura e, mesmo que às vezes conseguissem remediar essa carência voltando a torturar os já processados, também eles, ao se virem de certa forma desocupados, buscaram pretextos para emigrar. As bolsas oferecidas pela grande nação do Norte, para o curso de aperfeiçoamento antiguerrilha na zona do Canal, começaram a ser aceitas massivamente. Aproximadamente a metade dos oficiais na ativa foi canalizada para o Canal. A metade restante se dividiu em dois clãs, que passaram a disputar o poder. Isso durou até a tarde em que um general medianamente lúcido reuniu seus camaradas no cassino do quartel e lhes lançou a seguinte pergunta: "Por que lutar pelo poder se já não há ninguém para ser comandado? Sobre quem, caralho, exerceremos o poder?" O efeito da dúvida filosófica fez com que no dia seguinte 90% dos oficiais

 
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