Quem é o advogado de 28 anos que venceu a mais célebre causa de direito de família dos últimos tempos - o caso Sean - e como ele viveu a maratona que antecedeu o embarque do menino para os Estados Unidos
Na segunda-feira, 21 de dezembro de 2009, Ricardo Zamariola Jr. acordou às sete da manhã no apartamento alugado para onde se mudara há dois anos. Enquanto no Brasil, nos Estados Unidos e em todo o mundo cristão o ritmo de trabalho diminuía com a aproximação do Natal, o advogado entrava na semana crucial de sua curta carreira: a da decisão do destino do menino Sean, de nove anos, que há cinco anos, seis meses e cinco dias fora separado do seu pai, o americano David Goldman.
Zamariola pegou a mala com rodinhas preparada na véspera - um conforto notável, se comparado à de alça que carregava até então, mas ainda aquém das que deslizam com quatro rodinhas, usadas pelos advogados que vivem nos ares entre São Paulo e Brasília - e rumou para o escritório. Combinou a estratégia com os sócios. Paulo Roberto Andrade foi escalado para fazer marcação cerrada em Brasília, onde Gilmar Mendes, o presidente do Supremo Tribunal Federal, anunciaria a decisão. Zamariola e Marcos Ortiz embarcaram para o Rio. Ortiz não levou nada porque pretendia voltar à noite para São Paulo.
Às duas da tarde, Paulo Roberto Andrade plantou-se na antessala do gabinete do presidente do stf. Com o recesso do Judiciário, o prédio estava praticamente vazio. Na antessala, havia apenas outros dois advogados, contratados pela família Lins e Silva para garantir a permanência do menino Sean Goldman no Brasil.
No Hotel Marriott Copacabana da avenida Atlântica, o quarto 815 era uma anomalia. Apesar de ter vista para o sol escandaloso, o céu azul estalando e a praia tropical, o apartamento tinha ar de bunker. Cortinas pesadas vedavam a luminosidade e o ar interno oscilava entre o gelado e o abafado devido a um defeito na regulagem do termostato. O apartamento havia sido alugado dias antes, com o nome falso "Richard Spain", para evitar repórteres, por David Goldman. Como a reserva fora feita por intermédio da embaixada americana, a diária caíra de 550 para 200 dólares.
De bermuda e camiseta, David Goldman estava estendido na cama. Com o controle remoto na mão, mudava de canal constantemente, sem prestar atenção a nenhum. Exceto quando, na cnn, aparecia o letreiro Developing Story - Brazil custody battle, e se repetia à exaustão o sabido: que a decisão deveria sair a qualquer momento.
Sentada numa ponta da cama, Orna Blum, a assessora de imprensa da embaixada americana, transformara o seu BlackBerry numa central de informações. Ao longo do fim de semana, recebera várias mensagens de texto da equipe da secretária de Estado Hillary Clinton, com pedidos de atualização do caso. Volta e meia lhe chegavam rumores com maior ou menor sentido. O mais recente dava conta que João Paulo Lins e Silva, o padrasto de Sean Goldman, havia sido visto no fim de semana em Itaipava, na serra fluminense.
Acocorada no chão, a americana Benita Noel era um feixe de nervos expostos. Produtora-sênior da emissora americana nbc, ela era responsável pela operação de cobertura diária do caso Sean e pelo programa especial a respeito do assunto, no qual a rede americana investira algumas centenas de milhares de dólares. Era sua quarta vinda ao Brasil com David Goldman, todas elas feitas em cima da hora, com tempo cada vez mais exíguo e equipes cada vez maiores. Dessa vez, largara a decoração da árvore de Natal pela metade, mas prometera à filha de 6 anos que voltaria a tempo de terminá-la. Mas dependia, também ela, de Gilmar Mendes.
Espremido no sofazinho de honra do apartamento, o congressista Chris Smith também havia largado os filhos para vir pela terceira vez ao Rio. Corresponsável pela elaboração do primeiro relatório americano sobre sequestros à luz da Convenção de Haia, o parlamentar republicano acompanhava dez outros casos simultaneamente. "Só que este não é apenas um caso a mais", explicou Smith, um senhor rechonchudo e afável. "David tornou-se um amigo." Ambos são de Nova Jersey. No dia anterior, domingo, enquanto repórteres faziam vigília na frente do Marriott, o parlamentar e David Goldman saíram por uma porta lateral e foram a pé até uma igreja na praça Serzedelo Correia, em Copacabana.
Numa pequena mesa voltada para a parede, Karen Gustafson de Andrade, a chefe do serviço consular americano no Rio, a mais objetiva e silenciosa do apartamento, assumira o comando do laptop de David Goldman. Como ela era a representante do Departamento de Estado no Brasil para questões envolvendo a Convenção de Haia, seria em suas mãos, segundo a sentença emitida em junho pelo juiz federal da 16ª Vara, que o menino Sean deveria ser entregue.
Foi a esse grupo que vieram se juntar Ricardo Zamariola e Marcos Ortiz. Eles eram os únicos capazes de explicar aos americanos as nuances do desenrolar processual e jurídico do caso. Durante todo o dia, os celulares se revezavam numa cacofonia desgastante de sons. As conversas mais sigilosas, como a do congressista com o senador democrata Frank Lautenberg, que telefonava de Washington, eram feitas no pequeno saguão de entrada ou no banheiro.
"Acho que não vai acontecer mais nada hoje", disse, no meio da tarde, David Goldman, que trocara o controle remoto por uma revista de palavras cruzadas. Disse a frase com uma ligeira entonação de pergunta, e ninguém respondeu. Os outros debateram em inglês como poderia ser o embarque do menino Sean para os Estados Unidos.
- Se eles não entregarem a criança no consulado, teremos de ir até a residência - disse o advogado Ricardo Zamariola, referindo-se ao padrasto e aos avós maternos do menino.
- Queremos fazer tudo o mais rápido possível. Não poderíamos buscá-lo em casa e ir direto para o aeroporto, onde já estaria David? - perguntou a assessora de