A polícia perversa pega pretos, pobres e prostitutas, os políticos prometem em palanques praias e piscinas, pura palhaçada em proveito próprio, mas o poeta da periferia prevê populares portando pistolas, pólvora, pescoço, peito e pulmões perfurados
Genival Oliveira Gonçalves tirou a mala do bagageiro do carro, levou-a para a entrada do prédio e abriu-a no chão de cimento: cds, dvds e camisetas promocionais chamativas ficaram à mostra. Numa delas, lia-se: "O estudo é o escudo." Àquela hora, seis da tarde, a Secretaria Municipal de Cultura de União dos Palmares, na zona da mata alagoana, deveria estar fechando as portas. Mas, com a autorização do secretário, Gonçalves expôs seus produtos para uma dúzia de possíveis compradores.
"Gente, se não puder pagar à vista, eu divido em trinta, sessenta e até noventa dias", dizia, animado. Apareceu um sujeito que, desinteressado, atravessou o burburinho - um evento, afinal, na pacata Palmares - ignorando-o por completo. Gonçalves se eriçou. "Seu Genésio me batizou com nome de caixeiro-viajante e me ensinou a vender", disse. Carlos Roberto da Silva, o desinteressado, foi interceptado ao descer a pequena escada que levava ao portão e à rua. Guia turístico de 34 anos, Silva ruborizou levemente quando o grandalhão desconhecido - 1,80 metro e 85 quilos - abordou-o, com jeito, mas incisivo: "E aí, velho, não quer dar uma olhada nas camisetas? É o nosso trabalho de autogestão." Silva não queria. Tinha pressa.
- Você compra uma camisa se eu falar rapidamente vinte palavras seguidas só com a letra "P", tudo fazendo sentido? - propôs Gonçalves.
Antes que o rapaz pudesse responder, aumentou a oferta:
- Trinta palavras, todas com "P". Trinta, velho. Topa?
- Trinta só com "P"? Não pode! - disse Silva.
- Quarenta. Topa? - aumentou Gonçalves.
- Posso anotar uma por uma?
- Pode.
Uma caneta materializou-se na mão de Silva. Mas ele regateou e só topou a aposta quando Gonçalves colocou no pano verde sessenta palavras com "P". No meio da roda que se formou, disparou as primeiras:
Pesquisa publicada prova
Preferencialmente
Preto pobre prostituta
Pra polícia prender
Pare pense por quê?
Silva rabiscou treze "pês" numa folha de papel. E Gonçalves disparou mais dezenove:
Prossigo
Pelas periferias praticam perversidades pms
Pelos palanques políticos prometem prometem
Pura palhaçada
Proveito próprio
Praias programas piscinas palmas
Como o rapaz não conseguia grafar o "P" no mesmo ritmo do rap, Gonçalves parou e sugeriu que marcasse com tracinhos, formando um quadrado cruzado a cada cinco palavras. Silva gostou. E, com o desafio virando festa, encheu uma folha de quadradinhos:
Pra periferia
Pânico pólvora pá pá pá
Primeira página
Preço pago
Pescoço peitos pulmões perfurados
Parece pouco
Pedro Paulo
Profissão pedreiro
Passatempo predileto
Pandeiro
Preso portando pó
Passou pelos piores pesadelos
Presídio porões problemas pessoais
Psicológicos perdeu parceiros passado presente
Pais parentes principais pertences
O rapaz se atrapalhava na contagem, mas foi até o fim:
pc [o tesoureiro de Fernando Collor]
Político privilegiado preso parecia piada
Pagou propina pro plantão policial
Passou pela porta principal
Posso parecer psicopata
Pivô pra perseguição
Prevejo populares portando pistolas
Pronunciando palavrões
Promotores públicos pedindo prisões
Pecado pena prisão perpétua
Palavras pronunciadas
Pelo poeta periferia
Na última estrofe, Silva começou a ouvir mais alguém fazendo um dueto com Gonçalves. Era o próprio. O som, ligado por um fã que o acompanhava, vinha do carro que o trouxera, estacionado ali próximo. Era a mais recente gravação de Brasil com P, uma das quinze faixas do cd GOG ao Vivo - Cartão Postal Bomba!, à venda em poucas lojas, na internet e na mala que ele carrega nas viagens. Nessa versão, o solfejo que pontua a sucessão de "pês" é da cantora Maria Rita.
No final da performance, Silva ficou sabendo que o camelô tem o nome artístico de GOG, as iniciais de seu nome. Ele as pronuncia como um monossílabo, enquanto fãs preferem chamá-lo de Gê Ó Gê. Silva terminou de marcar os "pês" com trilha sonora, visivelmente maravilhado. Desculpou-se por não conhecê-lo, e pagou a aposta comprando três camisetas e um dvd. Não tinha dinheiro para pagar à vista, então o rapper aceitou a metade e deu ao rapaz o número de sua conta, para que depositasse o resto no dia combinado. De boca, simplesmente.
GOG é um dos rappers mais premiados do hip-hop brasileiro. Em dezembro passado esteve entre os cinco primeiros do Prêmio Hutúz, junto com Racionais mc's, mv Bill, Rappin'Hood e o falecido Sabotage. No show de entrega, incendiou a plateia com Brasil com P - premiado como um dos quatro melhores clipes da década.
O rapper faz 45 anos (ou "4.5 turbinado", como prefere) em março. Seu primeiro disco de rap, ainda nos tempos do vinil, foi Peso Pesado, em 1992. O nono é de 2007, Cartão Postal Bomba!. Dois deles - cpi da Favela, no qual está a aliterativa Brasil com P, e Tarja Preta - entram em qualquer coletânea do rap nacional. O décimo, previsto para este ano, trará um rap calcado em Construção, de Chico Buarque, de quem GOG é admirador. "O Chico construiu, e eu vou desconstruir", disse.
Numa entrevista a Fernando de Barros e Silva, publicada na Folha de S.Paulo em dezembro de 2004, Chico Buarque afirmou: "Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou. Estou dizendo tudo isso e pensando ao mesmo tempo que talvez seja uma certa defesa diante