Dez anos atrás, a jornalista e tradutora carioca criada em São Paulo Adriana Marcolini embarcou para Sarajevo, na Bósnia-Herzegovina, onde viu o que é um país devastado pela guerra. Foram seis meses de trabalho junto ao Alto Comissariado da Organização das Nações Unidas para Refugiados. Cinco anos depois, retornou à ex-Iugoslávia para fazer uma pesquisa para o Laboratório de Estudos da Intolerância, da Universidade de São Paulo. Decorridos outros cinco anos, Adriana voltou a fazer as malas. Dessa vez, para cumprir contrato de nove meses no Escritório de Comunicação do Comitê Internacional da Cruz Vermelha em Buenos Aires. Vencido o prazo, esticou a permanência na Argentina por mais um ano, trabalhando como free-lancer para publicações brasileiras. Retornou da capital portenha com o troféu particular que buscava, aos 49 anos: destreza para, do alto de um sapato salto agulha e sola de cromo, deslizar numa pista de milonga sem ser apontada como gringa.
quinta-feira, 3 de abril de 2008_Desembarco em Buenos Aires com uma obstinação: aprender a dançar tango direito. As poucas aulas que frequentei na academia Tango B'aires, em São Paulo, tinham me apontado o caminho.
12 de maio_Fui bisbilhotar um curso de dança indicado por um amigo. A aula, no amplo salão da milonga Porteño y Bailarín, terminava às 22 horas - uma hora antes da abertura do salão como casa noturna. Havia alunos demais e não gostei da professora. Mas conheci o assistente dela, um italiano chamado Alfredo Caravita, que só cobrava 10 pesos (por volta de 5 reais) pela aula em grupo. Ele se formou pela Universidade do Tango, mantida pela prefeitura de Buenos Aires. A universidade tem dois cursos de três anos de duração: instrutor e professor de história do tango. Ambos são gratuitos. Migrei para as aulas do professor Caravita.
Logo no começo, fiquei sabendo que nas milongas portenhas, as casas onde se dança tango em Buenos Aires, há três maneiras diferentes de bailar: o "tango de salão"; o "milonguero" e o "tango nuevo". Enquanto o primeiro mantém uma distância um pouco maior entre os corpos e o abraço é mais flexível, o segundo é mais fechado, porque ambos parceiros de baile estão mais próximos um do outro. Já o último, que como diz o nome, é um novo tipo de baile, rompe com todas as estruturas na maneira de dançar o tango. Em teoria, este último estilo deveria ser praticado somente por aqueles que já dominam os passos da dança - o que lhes permite partir para a improvisação. Escolho aprender o "tango de salão", por ser o que me parece mais fácil. O aprendizado começa com intermináveis exercícios de "caminhada individual". À primeira vista parece fácil, mas caminhar ao som do compasso é um exercício e tanto. É a forma mais sutil de bailar. O bom dançarino não é aquele que faz figuras múltiplas na pista - os movimentos com as pernas que tanto fascinam os estrangeiros - mas aquele que é capaz de ter uma caminhada elegante, sutil e expressiva. Quem é do ramo ensina: uma figura se aprende em uma hora; já o caminhar pode levar dez anos.
A direção que se quer imprimir ao movimento (para a esquerda, para a direita, adiante, para trás), o ritmo e a amplitude dos passos fazem parte do repertório ilimitado à disposição de um dançarino de tango. Caravita enfatiza que em alguns passos, a forma de pisar no chão, meio de lado, começando pela lateral interna do pé, imprime uma elegância especial, sobretudo às mulheres. Quando bem delineados, os pés femininos, mesmo calçados, adicionam sensualidade ao tango.
Nas aulas seguintes, passamos para a "caminhada em dupla", nome dado ao movimento do par que se desloca um de frente para o outro. As damas aprendem a manter os braços meio estendidos, com os cotovelos ligeiramente dobrados, e a apoiar as palmas das mãos sobre o peito do parceiro, perto dos ombros. Feito isso, o par passa a caminhar para frente e para trás por toda a superfície do salão. O objetivo do exercício é iniciar a mulher na arte de sentir o contato do tórax do parceiro - é com o peito que o cavalheiro conduz a dama.
Além da regra genérica de ser proibido olhar para o chão, aprendi que no tango é sacrilégio conversar enquanto se dança. O ritual exige silêncio. A dama que se entrega por completo ao parceiro de tango pode, inclusive, dançar de olhos fechados. É uma viagem, garante o professor. Talvez algum dia eu chegue lá. Por enquanto, não consigo sequer sentir o tórax do meu companheiro - primeiro passo para poder ser conduzida por ele.
2 de junho_Péssima notícia: Caravita anunciou que esta seria a nossa última aula no endereço atual. Devido a problemas com o proprietário, teve de arrumar outro local, que achei pequeno demais. Não o segui.
16 de junho_Conheci um colombiano que dá aulas individuais por apenas
10 pesos, Ernesto Falla. Ele me garantiu ter um método capaz de me fazer sair do estágio de indigência de tanguista e chegar ao nível intermediário. Isso significa dominar os oito passos básicos do ritmo: "posição parada com os pés juntos", "saída para trás"; "saída de lado"; "pequena caminhada", também chamada de "parte andada"; "cruzamento"; e "resolução final", em três etapas. Eles constituem a estrutura básica da coisa, e podem ser combinados entre si ou integrados a outros elementos. Não é imperativo que a numeração de um a oito siga essa ordem.
Marcamos a primeira aula para o sábado, na minha casa. Combinamos que ele traria um casal de colombianos para os exercícios ficarem mais atraentes.
5 de julho_Começamos a ensaiar um elemento cheio de armadilhas, o "abraço", considerado o "coração" do tango dançado. Nessa posição, a dama deve passar o braço esquerdo sobre o ombro de seu parceiro e pousá-lo sobre as costas dele. Sem se dependurar, contudo. Não existe um ponto exato onde apoiar, pois isso vai depender da altura do parceiro e