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questões do passado no presente
O funeral da memória
CATHERINE HERSZBERG
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O mundo ocidental transformou o 65º aniversário da libertação de Auschwitz numa cerimônia nacional, sem que nenhum cigano e nenhum judeu, que não falassem polonês, fossem convidados a se expressar na língua que era a deles quando foram aniquilados

Venho de uma dessas tribos nas quais os campos de concentração possuem tamanho poder de realidade que a sua evocação pontua as conversas mais corriqueiras. Sem drama, ou excepcionalmente, ou de passagem, ou meio à toa, o campo de concentração aparece na frase e desaparece em seguida, como acontece com o vocabulário cotidiano. De modo que nunca tive vontade de ver Auschwitz-Birkenau, nunca. Recentemente, porém, quando do 65º aniversário da libertação do campo, uma das duas sobreviventes de minha família manifestou o desejo de ir até lá mais uma vez, a última, no rastro de sua memória e para se despedir dos seus. Ir com Régine, mulher miúda, encolhida pelo tempo, de 90 anos, com uma vitalidade capaz de extenuar uma criança, era sem dúvida uma oportunidade ímpar. "Vou com você." "Ah! Que bom..." Já não havia como dar para trás.

Contudo, o caso não demorou a me parecer malparado. Para começar, a correspondência da potência anfitriã, o Ministério da Defesa e dos Ex-combatentes: "É para mim um imenso prazer convidá-la a acompanhar o ministro nesta viagem simbólica." Pensei: Auschwitz, assim espero, é demasiado real para se tornar simbólico. E também: os deportados não acompanham ninguém aos campos, eles lá recebem os visitantes. E ainda: será que estão precisando de figurantes para a foto?

Mas em certos assuntos, como este, ficamos cheios de melindres e avançamos com os sentidos todos em riste. Era preciso dar um desconto. A formulação era infeliz, mas devia ser sincera. Eu estava com espírito de porco.

Poucos dias antes da viagem, recebemos a programação num envelope timbrado - com as cores da França - do Ministério da Defesa. No meio do envelope, impresso numa etiqueta, meu nome e a função: acompanhante. "Alô, você recebeu a convocação?" "Recebi, Régine." "O que eles puseram no envelope?" "Acompanhante. E no seu?" "Ex-deportada." "No envelope? Eles puseram isso no envelope?!" "É, no envelope." Bem que eles podiam ter posto o número, me disse um amigo. Meus amigos também têm espírito de porco.

No dia 27 de janeiro, às cinco da manhã, embarcamos no avião oficial. A bordo, 170 passageiros, o ministro e sua turma, personalidades, parlamentares, estudantes secundaristas... e dezesseis ex-deportados de mais de 80 anos. Pousamos em Cracóvia sob 17º graus negativos e embarcamos nos ônibus rumo a Oswiecim. Em cada ônibus, havia um "guia". Nossa guia deu mostras de um inquestionável talento para a animação coletiva. Já que o ônibus transportava deportados e secundaristas - vencedores, além do mais, do Concurso Nacional sobre a Resistência - eles tinham que conversar entre si.

 Em voz alta. No microfone. Chama-se a isso transmissão da memória. A guia: "Senhora M., venha sentar-se aqui na frente, pegue o microfone, dê seu testemunho para esses jovens, e eles vão fazer umas perguntas." A voz da Senhora M. se ergue dentro do ônibus, ao microfone, treinada, sem querer, no circuito Descoberta da Exterminação. "Meus pais e dez dos meus irmãos foram para a câmara de gás logo na chegada..."

Três estudantes estão sentados aos seus pés, atentos à transmissão da memória... "E o ss era capaz de pegar o meu número e me fuzilar..." A senhora M. convida os adolescentes a fazerem perguntas. "Vocês não podem imaginar o que era a chamada, naquele frio de rachar, nus, horas a fio..."

A senhora M. insiste em que façam perguntas, os estudantes relutam. "E a fome? Vocês, felizmente, não sabem o que é a fome..." No fundo do ônibus, a conversa fora retomada normalmente - a memória já tinha, sem dúvida, sido transmitida... "As chaminés funcionavam o tempo todo..." Os estudantes conseguiram finalmente inventar algumas perguntas... "Havia em Auschwitz um cheiro que não dá para esquecer..."

Imaginei que aquela voz escorreria, interminável, do microfone, cobrindo, sem apagá-lo, o alarido das conversas, e de repente, foi irreprimível, corri até o fundo do ônibus para junto da guia: "Você vai nos fazer aguentar isso até o final? É obsceno!" A guia: "Para qualquer reclamação, dirija-se ao serviço de protocolo." Em volta, alguns parlamentares tinham escutado, quietos e surpresos. Com o que então, não era obsceno. Eu estava com espírito de porco.

Chegamos a Auschwitz uma hora mais tarde e nos distanciamos do grupo para percorrer o campo ao sabor das lembranças de Régine. Antes do almoço, ela foi interpelada por uma ex-deportada com um carregado sotaque iídiche em vias de desaparecimento. "Está gostando da visita? Eu não estou gostando nada! Mudaram tudo, quase já não tem óculos e os cabelos não são cabelos de verdade. Tinha umas tranças compridas, pesadas tranças loiras, que não estão mais aí." "Não pode ser, minha senhora, eles não mudaram as vitrinas." "Pois eu digo que mudaram tudo! Não tem mais trança, nem óculos..."

Excesso de emoção. À mesa, conversei com o senhor à minha frente, seu Salomão, medalha do mérito, de honra e da Cruz de Guerra. Combatente da Resistência, nunca tinha passado por Auschwitz; sobrevivera a Struthof e Dachau.

Depois do almoço, nos levaram para Birkenau... para o pórtico da entrada de Birkenau, a rampa de Birkenau. Fazia um lindo dia frio e ensolarado, a rampa estava coberta por uma grossa camada de neve, andamos até a comprida tenda armada para as cerimônias oficiais, lá no fundo do campo e, no trajeto, Régine foi explicando para uns poucos membros da delegação como se dava a seleção na chegada dos trens. Uma escuta atenta, mas não durou muito, chegamos à tenda já engarrafada na entrada. "Os sobreviventes!... Passem na frente!" Como era acompanhante de sobrevivente, tive a sorte de evitar a multidão.

Sob a tenda, estavam acomodadas algumas centenas de pessoas - os sobreviventes num bom lugar, mas como não chegavam a 100,

 
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