Quase desde a sua invenção, a fotografia adquiriu o costume de transformar pessoas em símbolos por acidente. Um pintor pode gastar um ano inteiro numa tela, construindo a representação personificada de uma ideia abstrata - como "O Triunfo da Verdade" ou "A Recusa da Tentação" - em todo seu esplendor visual. Mas a câmera só tem uma fração de segundo para capturar uma cena. E se essa cena for de algum modo marcante e memorável - em sua composição, tema, luz - ela pode se tornar "icônica", ou seja, seus elementos podem ser entendidos como uma referência a emoções, conflitos e problemas de ordem bem mais geral.
Quando o obturador dispara, um futuro metafórico desse tipo raramente é imaginado pelo fotógrafo ou seus modelos, que podem nem mesmo estar cientes de que uma foto está sendo tirada. E o instante captado tanto pode ser banal quanto extraordinário: um casal que se beija numa rua de Paris, um camponês e sua família na Califórnia, uma criança queimada que corre pela estrada no Vietnã. Uma foto assim pode acontecer em qualquer lugar. Até mesmo num tradicional jogo de críquete inglês.
Em 1937, já fazia 132 anos que as duas escolas particulares mais célebres da Inglaterra, Eton e Harrow, vinham disputando jogos anuais de críquete, a modalidade de esporte coletivo com bola mais antiga e duradoura do mundo. É provável também que a partida fosse, como continua a ser, a competição disputada há mais tempo na história do esporte.
Junto com as corridas em Ascot e as regatas de Henley, as partidas entre Eton e Harrow no estádio Lord's Cricket Ground, ou Lord's, em St.John's Wood haviam se transformado num dos momentos altos da temporada social londrina. Duravam dois dias, e atraíam grandes multidões - os espectadores chegaram a mais de 30 mil na primeira década do século xx. Alunos e ex-alunos das duas escolas compareciam com as suas famílias, de modo que a plateia reunia juízes, diplomatas, escritores populares (e impopulares), proprietários de terras, membros do Parlamento, financistas, bispos e duques: riqueza, privilégio e distinção de todo tipo. De suas carruagens emergiam cestas de piquenique com sorbets e champanhe gelada, e almofadas para tornar mais macios os assentos de madeira das arquibancadas. O público masculino comparecia de casaca e cartola, as mulheres de chapéu e vestido de verão.
Quanto aos próprios alunos (os harrovians e etonians), cabia-lhes apresentar-se de acordo com a norma de formalidade máxima exigida para a ocasião. Com pequenas variações de estilo, que apenas um estudioso muito capacitado do sistema social inglês conseguiria distinguir, os estudantes das duas escolas envergavam a indumentária que em algum momento do século xix tinha se transformado no uniforme do gentleman inglês: cartola, casaca, colete de seda e bengala.
Na manhã da sexta-feira, 9 de julho de 1937, Peter Wagner e Thomas Dyson estavam assim paramentados junto ao portão do Lord's. Ambos estudavam em Harrow e estavam com 14 e 15 anos de idade, respectivamente. A multidão que compareceu ao jogo era numerosa e elegante. Dela faziam parte o deão anglicano de Durham, o magnata do gim Walter Gilbey, a mulher e o filho do eminente estrategista militar Basil Liddell-Hart, e o exótico Alake de Abeokuta, um simpático potentado nigeriano que posou para fotografias em todo o esplendor de seu traje africano.
Meninos que viviam nas redondezas, convertidos em carregadores por um dia, retiravam as cestas de vime dos carros que chegavam e as transportavam até a beirada do campo. A família Wagner combinara um programa especial. Peter e seu amigo Thomas Dyson (apelidado de Timmy ou Tim) viriam de Harrow já de malas prontas e, ao final do primeiro dia do jogo, partiriam diretamente para a casa de campo da família Wagner, onde passariam o fim de semana. O jogo começaria às onze da manhã, e pouco antes os Wagner viriam encontrar os dois rapazes no acesso conhecido como Grace Gates. Não poderia haver engano quanto ao ponto de encontro. Os Grace Gates eram de longe a mais esplêndida das entradas do Lord's.
Os dois rapazes esperavam, e os minutos corriam. Nenhum sinal do carro. Peter acabara de se matricular em Harrow, no começo do semestre de verão. Tim entrara no ano anterior. Peter era o menor e o mais jovem, e provavelmente também o mais inteligente dos dois, pois conquistara uma bolsa e Tim não. Conheciam-se através dos pais - embora o casal Wagner frequentasse círculos diferentes do casal Dyson, a amizade entre eles nascera durante um cruzeiro. Podemos especular, portanto, que a espera deixasse Peter mais ansioso que Tim. A julgar por seus problemas posteriores, ele efetivamente devia ser o mais nervoso dos dois. E o peso da responsabilidade (seus pais, atrasados) talvez o tenha feito dar as costas para Tim e voltar os olhos para o oeste, fixos no provável caminho de chegada do carro da família.
Enquanto isso, Tim se entretinha com outras distrações. Três meninos das imediações o encaravam, e havia um homem na beira da calçada apontando uma câmera em sua direção. Jamais saberemos certas coisas. Não temos como descobrir se o homem com a câmera na mão pediu aos três meninos locais para entrarem na foto, ou se estes já estavam ali por acaso; se riam ou zombavam de Dyson e Wagner; se o fotógrafo instruiu Dyson a desviar um pouco os olhos da lente; ou se o momento deixara Dyson e Wagner agudamente conscientes dos trajes que usavam - as cartolas, os coletes, as flores na lapela e as bengalas. O filme captou um instantâneo que sugere uma indiferença majestática dos dois estudantes para com os garotos mais pobres a seu lado, como se esses meninos, além de meros espectadores, fossem também seus súditos.
O momento passou, a manhã seguiu seu curso. O fotógrafo e os meninos locais desapareceram, o carro dos Wagner finalmente chegou. E a contribuição mais duradoura daquele jogo de críquete para a história acabou ocorrendo antes que a bola entrasse em movimento, na