Pouco antes das quatro horas de uma madrugada recente, um comboio de seis veículos encostou junto à calçada da rua Visconde de Pirajá, a mais movimentada de Ipanema, no Rio de Janeiro. A picape prata da subprefeitura da Zona Sul era seguida por um carro da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social, uma viatura da Guarda Municipal, outra da Polícia Militar, um ônibus da prefeitura e um caminhão da companhia municipal de lixo.
Um homem de óculos, na faixa dos 50 anos, vestido de camisa polo e calça jeans, bateu a porta da picape com força e, seguido por quatro seguranças musculosos, andou em direção à entrada de uma loja. Embaixo de uma marquise, três homens dormiam. Enrolados em panos velhos, usavam papelão encardido como colchão e sacolas de plástico como travesseiro. Em volta, havia garrafas pet vazias e jornais. O grupo recendia a suor, álcool, urina.
"Bom dia", disse o homem da picape, "os senhores queiram se conduzir ao ônibus para nós os levarmos ao abrigo." Um dos maltrapilhos, o que havia coberto a cabeça com a camiseta, colocou parte do rosto para fora, esforçando-se para entender o que se passava. Resignados, os mendigos começaram a se movimentar em câmera lenta. Trôpegos de sono, ou pelo evidente consumo de bebida na véspera, abaixaram-se para catar alguma coisa e caminharam em direção ao ônibus vazio.
Mal levantaram, dois garis entraram em cena como um furacão. Em menos de cinco minutos, sumiram com as sacolas, um carrinho de feira, os restos de papelão, os jornais e as garrafas de plástico. Tudo foi jogado dentro da caçamba do caminhão. Para os garis, era lixo. Para os mendigos, tudo o que tinham na vida.
"Antes, fazíamos a ronda às sete da manhã, mas dava tempo da pessoa correr, causar tumulto", explicou dias depois o cérebro da limpeza, Bruno Ramos, um advogado de 31 anos, de camisa e cabelos engomados. "Agora é só na madrugada. Quando todo mundo está dormindo é mais fácil." Subprefeito da Zona Sul, Bruno Ramos tem o apelido de "Eduardinho" devido à sua relação simbiótica com o prefeito Eduardo Paes, de quem é amigo há mais de dez anos.
Há um ano e meio, a retirada de mendigos da rua passou a integrar o Choque de Ordem, a bandeira da gestão de Eduardo Paes. A tolerância zero da prefeitura carioca se estende a cachorros e futebol nas praias, aos ônibus fora da faixa destinada a eles, aos camelôs e carros nas calçadas, e aos caminhões em determinadas vias e horários. Nada disso deu certo: basta os poucos fiscais se ausentarem (com ou sem motivos pecuniários) e cachorros, bolas, ônibus, camelôs, carros e caminhões voltam tranquilamente aos locais proibidos.
Com uma população de 50 mil moradores, Ipanema abriga os prédios mais caros da América Latina. Um apartamento na Vieira Souto, a avenida da praia, já foi vendido a 24 mil reais o metro quadrado. O condomínio chegava a 8 mil reais. O bairro é o único do Rio onde o comércio de luxo subsiste em lojas de rua - nos outros, foi confinado a centros comerciais.
Ipanema era uma vila de pescadores até o começo do século xx, quando um acordo entre a companhia de transporte e o governo expandiu a linha de bondes até a divisa com Copacabana. Em 1920, além das choupanas dos pescadores, havia menos de cinquenta construções na beira-mar. Na virada dos anos 50 para os 60, veio a fama nacional e internacional, embalada pela canção composta por Tom Jobim e Vinicius de Moraes e gravada por Frank Sinatra. Durante a ditadura, virou sinônimo da resistência artístico-boêmia, encarnada pelo semanário O Pasquim.
Veio então a especulação imobiliária, que destruiu a maioria das casas e permitiu a construção das torres de apartamentos e escritórios. Ipanema, junto com o Leblon, ficou sendo apenas um bairro da classe média alta e dos ricos. Mas manteve algo do glamour, da condição de centro de irradiação de modas e tendências, o que não aconteceu com Copacabana.
O bairro tem pobres espalhados por calçadas, marquises, bancos de praças e parques. Durante um passeio de dez minutos pelas ruas mais movimentadas, sempre se cruza com uma meia dúzia de mendigos. Um deles é o sergipano José Augusto Soares. Ele dormia nas imediações da praça Nossa Senhora da Paz quando o Choque de Ordem levou-lhe o carrinho de feira com todos os pertences: mudas de roupa, documentos, dentadura e algumas latinhas que catara no dia anterior.
Uma semana depois da expropriação, enquanto almoçava uma quentinha dada por uma ipanemense, Soares contabilizou o que lhe havia restado: "Essas havaianas, essa camiseta preta, esse moletom verde e essa bermuda xadrez: só sobrou a roupa que eu estava usando."
Soares chegou ao Rio nos anos 70, incitado por um primo que falara maravilhas sobre oportunidades de emprego na construção da Barragem de Saracuruna, em Duque de Caxias. A aposta deu certo. Ao final da obra, trabalhou como pedreiro no porto, na Fiocruz e em presídios de Bangu. Entre uma coisa e outra, namorou, casou, teve um filho e comprou uma casa.
Houve a crise da dívida externa, a recessão, a inflação. As vagas na construção civil escassearam e Soares ficou desempregado. "Aí, já viu: eu com a mulher o dia inteiro em casa, sem ganhar dinheiro, não podia dar boa coisa", contou Soares. Uma briga mais violenta acabou com o casamento. "Fui embora levando só o carrinho de feira, com umas poucas coisas", disse-me com os olhos marejados.
Passava o dia na rua. Recolhia latinhas em lixeiras de lanchonetes para ganhar algum dinheiro com a venda do alumínio. Morava em um albergue na Lapa, onde pagava 17 reais por noite. Não era uma vida fácil, mas piorou. "Logo o lugar fechou e fiquei na rua da amargura", contou, agora em lágrimas. Dobrou cuidadosamente a quentinha e guardou metade da comida para a próxima refeição.
A economia melhorou. A vida de Soares não. Nunca mais viu