Estadão.com.br
   
  Página anterior Versão para impressão


 Assine piauí
só no site
Morrer em São Paulo
TOMÁS CHIAVERINI
A- A+Tamanho da letra
 

Praguejando e bufando, com gestos apressados de jovem, meu avô vestia o último terno de sua vida. Cabelos brancos, baixo e encurvado, já quase não tinha carne nos músculos. Era osso e pele apenas. Uma pele branca, seca e enrugada. Uma pele de papel. Mas naquela tarde ensolarada de inverno, tomado pela irritação, não parecia ter 92 anos e se movia como um garoto marrento.

Começara pela manhã o impasse. Ele se queixara à minha mãe, dizendo sentir dor nos ombros e estranhar que suas fezes estivessem escuras, pretas como piche. Ao telefone, o sobrinho médico foi categórico. A aparência de piche sinalizava um sangramento grave. Uma hemorragia no estômago provavelmente. Se não fosse internado imediatamente, meu avô morreria em algumas horas.

Mas apesar da gravidade, o prognóstico não pareceu assustá-lo. E a possibilidade de ir ao hospital nem sequer foi cogitada. Ficaria em casa até o corpo se curar sozinho. Para provar a boa saúde, almoçou bem e depois, como de costume, ligou o rádio num volume baixo e se deitou sob seu cobertor puído.

Havia tido uma longa vida, e talvez fosse mesmo melhor que morresse em casa, dormindo, lenta e serenamente se diluindo em si mesmo. Minha mãe e eu cogitamos a hipótese. Mas a família nunca apoiaria a decisão de deixar um dos nossos partir sem ser incomodado com as urgências do socorro. Tínhamos de levá-lo ao hospital, e fui eu o encarregado de convencê-lo.

Tarefa difícil. Primeiro argumentei que quanto mais cedo se internasse, maiores seriam as chances de cura. Ele não se abalou. Então eu disse que, se ficasse, dificilmente sobreviveria. Nada. Se fosse para morrer, meu avô preferia sua própria casa. Sem alternativa, fui além. Narrei, passo a passo, o que lhe aconteceria. Ficaria cada vez mais fraco, desmaiaria, chamaríamos uma ambulância e ele seria levado às pressas a um pronto-socorro. Iria daquele jeito, de pijamas e descabelado. Por outro lado, se fosse logo, poderia vestir seu melhor terno, pentear-se, entrar andando no hospital, conversar com o médico e quem sabe sair de lá com a mesma elegância.

Pela primeira vez ele não se opôs. Ficou em silêncio por alguns instantes, depois levantou com a agilidade de um gato, abriu o armário e começou a se vestir daquele jeito apressado, deixando claro seu descontentamento.

Horas mais tarde, após um longo tempo de espera nas cadeiras modernas da recepção do Hospital 9 de Julho, meu avô finalmente foi chamado. Não pôde conversar com o médico. Mandaram que tirasse o terno e vestisse uma camisola ridícula, de um tecido fino como papel, que ainda por cima lhe deixava as costas e as nádegas à mostra. Mal se deitou na maca da enfermaria e já lhe espetaram diversas vezes a pele enrugada do braço em busca de uma veia que, na falta de remédio melhor, recebesse soro.

Por minha mãe, ele soube que seria sedado para que uma micro-câmera fosse introduzida em sua boca, chegasse ao estômago e indicasse a causa do sangramento. Para isso, contudo, precisava estar em jejum por oito horas, e como almoçara o exame só seria feito à noite. Até lá, fariam outros. Minha mãe tentava animá-lo, conversava, contava piadas, e ele parecia compreensivo. Apesar de assustado, surpreendentemente não reclamava.

Tiraram sangue, ligaram fios para examinar o coração, mediram a pressão, apalparam o corpo todo, um médico inseriu um dedo enluvado em seu ânus para comprovar o sangramento. Seguia sem queixas, meu avô. Foi assim até pouco antes das 20h.

Mais uma vez, a enfermeira tomava-lhe a pressão. Então ele começou a reclamar. Empurrou a mulher, quis tirar a agulha plástica que repousava dentro de sua veia, disse sentir dor. A enfermeira tentou acalmá-lo, continuou a medir a pressão, mas era impossível. Não porque meu avô se debatesse, mas porque não havia mais pressão a ser medida.

Ela gritou por um médico. Vieram várias pessoas. Uma delas ordenou que trouxessem sangue. Cercaram a maca impedindo que minha mãe visse o que acontecia. Ela ainda segurou a mão dele que lhe apertava com força, mas logo teve de sair. Fecharam a cortina.

Mais tarde, o sobrinho médico voltou à sala de espera com notícias. Meu avô, sofrera uma parada cardíaca. Perdera tanto sangue, que o coração parara. Os médicos repuseram o sangue. Enquanto um deles massageava-lhe o tórax partindo algumas costelas, outro lhe enfiava um tubo pela boca, que logo levaria ar aos pulmões, também inativos. O responsável era amigo do sobrinho médico, por isso a equipe se desdobrou na reanimação. Massagearam o tórax magro de meu avô por cerca de 30 minutos, até que ele voltasse à vida. Num milagre sádico-medicinal, ele acordou naquele inferno de máquinas e homens pragmáticos. O tempo que permanecera morto surpreendentemente parecia não ter causado danos ao cérebro.

Após explicar isso tudo, o sobrinho médico perguntou se minha mãe queria ver o pai. Ela titubeou, aflita. Ele insistiu, disse que seria bom para a recuperação. Ela foi. Meu avô agarrou-lhe a mão desesperadamente, grunhindo, impedido de falar devido ao tubo que lhe invadia a garganta. Estava sem a camisola, de fraldas, o peito revestido de hematomas.

Minha mãe teve de voltar logo à sala de espera. Mas a imagem do pai magro e debilitado, amarrado à maca, de fraldas, tendo apenas os olhos para mostrar seu desespero, nunca sairá de sua mente.

Aquele momento de agonia e impotência foi o último contato que meu avô teve com o mundo. Dali foi para a UTI, onde, sedado, passou as 24 horas seguintes. Na noite posterior, pouco depois das 23h, teve outra parada cardíaca e faleceu.

Após a notícia, dormimos poucas horas. Acordamos de madrugada e nos dividimos para cumprir os herméticos trâmites do velório e enterro. Fui encarregado da missão aparentemente mais simples, mas que se mostraria a mais terrível: a liberação do corpo, no hospital.

Antes das 7h, atravessei a cidade, junto de minha namorada, Adriana, que não tinha realmente

 

 
Achados & Imperdíveis Só no site

Download

Seu computador precisa dos papéis de parede e dos descansos de tela da piauí. Baixe aqui o seu!



Complete sua coleção



O uso não autorizado de qualquer material incluído neste site pode constituir uma violação das leis de direitos autorais,
das leis de marcas comerciais, das leis de privacidade e publicidade e das leise regras de comunicações.