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diário
Se não melhorar, talvez eu vá dirigir um táxi
CHARLY BRAUN
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Há dois anos e meio, o cineasta carioca CHARLY BRAUN só pensa numa coisa: concluir seu primeiro longa-metragem. Aos 30 anos, ele quase desapareceu no labirinto da burocracia estatal, do marketing privado e dos direitos musicais internacionais. A ansiedade extravasa em noitadas de muita cerveja e cigarro, o que lhe valeu uma doença no pulmão. Ele espera lançar o filme no próximo ano - com pouco dinheiro, muita vontade e nenhum pistolão

SEGUNDA-FEIRA, 1º de fevereiro de 2010_Estou finalizando o filme. Essa etapa inclui a edição das imagens e do som, a feitura da trilha sonora, a correção de cor e luz, dublagens, a transferência de imagens de digital para película e outra série de procedimentos técnicos. No final do ano, a duras penas, consegui captar algum dinheiro por meio das leis de incentivo, e temos o suficiente para pagar os custos para se chegar a uma cópia do filme em 35 milímetros. Estou animado com a perspectiva de concluir meu primeiro longa-metragem.

TERÇA-FEIRA_Passei o dia com o diretor e montador Fernando Coster, com quem dividi o árduo e longo (quase um ano!) processo de edição. Revisamos todo o filme e conversamos exaustivamente sobre as últimas mudanças feitas no corte. Agora seria a última chance de mudar alguma coisa, mas julgamos não ser mais necessário. Certa vez li que um filme não se termina, se abandona. Decidimos que esse momento chegou.

QUARTA-FEIRA_Preenchi os formulários para enviar uma cópia do filme ao Festival de Cinema de Tribeca, em Nova York. Foi lá que participei pela última vez de um festival, com meu curta Do Mundo Não Se Leva Nada, em 2007. Chove em São Paulo, pelo 43º dia consecutivo. Mas a chuva não refresca, e dormir num apartamento de último andar, sem ar-condicionado, é uma tortura.

QUINTA-FEIRA_Correndo atrás de direitos musicais. No filme, uso dezesseis músicas, e para quase todas existem dois direitos: os editoriais, que dizem respeito ao compositor, e os fonográficos, que geralmente pertencem a uma gravadora. Quanto mais conhecido o artista, e maior a gravadora, mais difícil é que deem atenção a um filme minúsculo, de baixo orçamento, e ainda por cima brasileiro-uruguaio. Ao longo da montagem já troquei cinco músicas por não conseguir sequer obter resposta dos detentores dos direitos.

SEXTA-FEIRA_Estamos inscrevendo o filme no Fundo Setorial do Audiovisual, o fsa, um novo mecanismo de financiamento criado pelo governo. A ideia é boa: o estado financia parte da obra e em troca torna-se sócio, recebendo percentual sobre a renda. Como ainda precisamos captar mais da metade do nosso orçamento, acho que o fsa talvez venha a ser a nossa última esperança. Embora o filme não seja exatamente comercial, e ainda não tenha distribuidora, acho que pode interessar ao Fundo, por seus méritos artísticos. E também por não ser um "miúra", a gíria de cinema para os filmes destinados a meia dúzia de cinéfilos. Pelo 45º dia consecutivo, São Paulo é assolada por um dilúvio. Levo quarenta minutos para chegar em casa, num trajeto que não leva mais do que dez. À noite, vou a um divertido baile de pré-Carnaval.

SÁBADO_Sou violenta e precocemente acordado ao meio-dia por um telefonema de minha mãe. Ela diz que as lojas estão em liquidação, e pede que eu vá escolher uma cadeira que ela me dará de presente de aniversário, embora faltem quase dois meses. Passei um ano editando o filme numa velha e incômoda cadeira de vime, em frente a uma mesa baixa para os meus 1,90 metro. Em casa, com o mundo caindo lá fora, escrevo mais algumas coisas para o edital do fsa. Deve ser o sexto edital em que inscrevemos o filme. Depois vou com uma turma ao CineSesc ver o filme palestino O Que Resta do Tempo. O ritmo lento, aliado à minha ressaca, logo me leva ao sono profundo. Às vezes não há nada melhor do que se deixar vencer pelo cansaço numa sala de cinema escura.

SEGUNDA-FEIRA_Vou buscar Esteban Feune de Colombi no aeroporto. Ator e escritor argentino, ele é o protagonista do filme e veio dublar as suas cenas. Deixei-o em casa descansando e fui à produtora. Consegui localizar os detentores dos direitos de uma belíssima música de cordas do Kronos Quartet. Foi uma luta já que o compositor, dos anos 30, Moondog, era um mendigo. E, sabe-se lá por quê, os direitos dele pertencem a uma velhinha alemã. Passo a tarde resolvendo pendências de produção e à noite levo Esteban para jantar.

TERÇA-FEIRA_Repasso com Esteban as cenas que irá dublar. Estou um pouco apreensivo: só temos uma diária e não sei se será o suficiente. A dublagem serve para corrigir problemas de captação de som, mas também permite melhorar a interpretação, por meio da fala. Esteban (talvez por não ser um ator profissional) não é exatamente um ás na dublagem. A maioria de suas falas sai dura, falsa. Interajo com ele sem script para que responda com naturalidade, e aos poucos sua dublagem vai ficando mais orgânica.

QUARTA-FEIRA_A caminho do aeroporto, levo Esteban para conhecer o centro de São Paulo. É impressionante como estrangeiros sempre adoram a região central. Visitamos um amigo de minha mãe que mora na cobertura de um prédio antigo e elegante na praça da República. Ele nos mostra todos os detalhes do apartamento que, segundo ele, fora escolhido por Henry Ford (financiador do prédio) para servir de residência caso a Segunda Guerra chegasse aos Estados Unidos. Fico fascinado com a quantidade de objetos que ele coleciona, e com a paixão que dedica a eles. Daria um ótimo personagem para um filme meu.

SEXTA-FEIRA_Recebi um laudo médico: "Bronquiolite causada por tabagismo." Fiquei assustado. Decido contratar um assistente neste último mês de finalização. Não estou dando conta de tudo sozinho. À tarde, vou para casa editar um vídeo de um minuto para mandar para o Talent Campus do Bafici, festival de cinema de Buenos Aires. Depois de duas horas, faço o envio pela internet.

 

 
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