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ficção
Prevaricações primevas
REINALDO MORAES
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O novo ser confrontava Adão com um paradoxo sedutor: seu mais notório diferencial anatômico, situado na região do baixo-ventre, não era algo a mais, e sim a menos, sem desdouro dos outros encantos, como as protuberâncias de excelente design e textura na altura do tórax e dos glúteos. Havia que reconhecer: Deus sabia muito bem o que estava fazendo

Acompanhai meu raciocínio: Deus criou o Paraíso e, logo depois, fabricou um homem para nele morar. Mais tarde, resolveu construir uma mulher para fazer companhia ao homem, através de procedimentos jamais revelados nem aos seus mais íntimos profetas, mas que deviam ser, especula-se hoje, uma forma primitiva, embora muito eficiente, de engenharia genética, ou seja, de clonagem a partir de uma costela humana. Os pergaminhos mais antigos a que se tem acesso, de pele de carneiro sacrificial, e as barbas brancas dos sábios que sobre eles se debruçaram através dos milênios, pouco esclarecem sobre a questão, em parte porque alguns rolos com trechos dos Manuscritos do Mar Maroto se perderam nas brumas do tempo e na farofa dos dias, se é que não estão em mãos ignotas e avaras. Mas antigos boatos nos meios escolásticos, mencionados em cartas entre teólogos e religiosos, interceptadas pelos mil braços da Santa Inquisição, dão conta do conteúdo de alguns desses pergaminhos perdidos.

Uma dessas cartas, escrita em grego clássico por um teólogo anônimo, talvez italiano, a um certo Roland de Poitiers, noviço anabatista e mariólatra polimórfico, que morreu queimado num ato de fé na segunda metade do século xvi, em Valladolid, na Espanha da Contra-Reforma (a carta do teólogo fora usada como prova contra ele), menciona uma versão apócrifa do Gênesis em que o cronista bíblico relata uma discussão bem pouco amigável entre Deus e Adão - entre Criador e criatura -, em torno da cessão de uma costela sobressalente deste último para a confecção, por parte do primeiro, de outro ser humano. Diz o tal pergaminho, ou, antes, o teólogo anônimo que teria tido acesso a ele, que Adão se afeiçoara sobremaneira àquela costela extra situada em seu flanco direito, a lhe conferir charmosa catadura assimétrica que o diferenciava dos outros animais do Paraíso, todos monotonamente simétricos à exceção do linguado, uma bizarrice a que Deus se permitira para desenfadar-se da faina criacionista. Consta que Adão relutou muito em abrir mão de sua estimada costela diferencial, e só o fez sob coação explícita do Todo-Poderoso que insistia em lhe oferecer uma companhia, apesar do primeiro homem jurar que estava satisfeito com sua distinguida condição de único espécime de sua espécie a vagar sobre o então paradisíaco globo terrestre, mesmo que os pósteros viessem a chamar essa disposição solitária pelo indigesto nome de misantropia.

Porém, segundo afirma o anônimo teólogo, assim que viu a segunda criatura recém-fabricada por Deus, Adão arregalou os olhos e se pôs a deitar copiosa baba no peito peludo, tão maravilhado ficou, chegando até a desdenhar mais tarde da costela perdida, conforme - sempre de acordo com a boataria no submundo da velha Igreja - pode-se ler em suas memórias pessoais, como mencionaremos mais adiante: "Dane-se aquela costela. Coçava de noite..."

Aquele novo ser que Deus chamou de mulher confrontava a inteligência e os sentidos de Adão com um paradoxo sedutor: seu mais notório diferencial anatômico, situado na região do baixo-ventre, não era algo a mais, e sim a menos, sem desdouro dos outros encantos que a mulher exibia sem pudor, como as protuberâncias de excelente design e textura na altura do tórax e dos glúteos. De fato, havia que reconhecer, Deus sabia muito bem o que estava fazendo. O mais curioso da história é que, mal botou os olhos na primeira mulher, Adão logo se sentiu varado pela vaporosa sensação de já ter visto em algum lugar aquela criatura, a única do gênero de que tinha notícia. Estranha, porém, nem era a sensação em si, mas a forte impressão de familiaridade que a acompanhava, como se não só já a tivesse visto, mas também entretido com ela um denso convívio. Onde teria se dado tal convívio, e quando, ele não sabia dizer. Na infância é que não poderia ter sido, pois já nascera adulto e nem sequer de um ventre materno. Em sonhos profundos, talvez. Vai saber.

O nome da mulher, segundo dissera Deus durante as apresentações formais, era Eva. Adão nunca tinha ouvido esse nome antes. Nunca tinha ouvido nome nenhum de mulher.

Eva.

Bom nome, ele achou. Eva. Nome alado, leve, luminoso. Onde Eva ia, ia Adão atrás, feito um guarda-costas atento para que nenhuma felicidade excessiva, nenhuma surpresa extasiante perturbasse a serenidade quase levitacional daquele ser tão singular. E aonde Adão ia, para lá também seguia a mulher Eva, sempre a seu lado, vendo com olhos de ver, opinando com língua de opinar, correndo com pernas de correr, respirando com pulmões de respirar, urinando com uretra de urinar, defecando com ânus de defecar, mens-
truando com ovários de menstruar e encantando com suas graças de encantar a todos os sentidos de Adão. O Paraí-
so, para ele, era agora só um fundo de cenário pintado com motivos bucólicos. O universo se resumia, tanto quanto se expandia, na figura de Eva, a mulher.

Eva. Eva. Eva. Eva - repetia Adão, entregando-se aos poderes hipnóticos daquele nome. E era Eva quem, a partir de seu primeiro dia de vida, acendia as manhãs, incendiava o meio-dia como se fosse uma churrasqueira no céu, ventilava as tardes nos trópicos eternamente temperados do Paraíso, coloria o crepúsculo com a rica paleta de sua personalidade policromática, e pousava à noite feito estrela candente no leito de folhas de ervas aromáticas onde o casal primevo se deitava para dormir. Todas as noites, por sinal, depois de muito rir e conversar, conversar e rir, a comentar os eventos do dia findo e a antecipar as boas surpresas que lhes reservava o seguinte, Eva adormecia, velada por Adão até o sol raiar.

Adão simplesmente

 

 
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