Dona Rosa é uma fadista de grande apelo internacional. No dia 25 de maio, ela se apresentou no Castelo Real de Poznan, na Polônia, de onde seguiu para outras quatro cidades, incluindo a capital, Varsóvia. Holanda, Alemanha, Austrália e Taiwan são alguns dos outros países em que já soltou a voz. Portanto, quem quiser contratá-la deve se preparar para cavar espaço na agenda. Para aumentar as chances, convém procurá-la em sua base de trabalho, nas adjacências turísticas do centro velho de Lisboa. Mais exatamente, na rua Augusta, é desnecessário se preocupar com o número do prédio e do apartamento, pelo bom motivo de que eles não existem. Dona Rosa se apresenta na rua mesmo. Seu gogó disputa a atenção e o bolso dos passantes com estátuas humanas, flautistas bolivianos, vendedores de haxixe e mendigos sem pendor artístico conhecido.
Ela está com 53 anos e é cega e rechonchuda. A cegueira confere ao seu canto uma intensidade peculiar, como se ela se fechasse ao mundo, sem se relacionar com nada além da música. É longa a tradição que liga cegos a profetas, e algo assim é sugerido quando canta. O acético triangulozinho que usa para se acompanhar só aumenta a sensação de vate austero. A carreira de rua começou já se vão 32 anos, logo depois de um assalto que a deixou sem dinheiro e sem os bilhetes de loteria que eram o seu ganha-pão. Resolveu se defender com a voz, adestrada em cantorias caseiras.
A trajetória internacional é mais recente e deslanchou graças a uma confluência de circunstâncias meio estapafúrdias. Não se sabe por que cargas d'água um austríaco dono de circo veio a nutrir o desejo bastante específico de rodar no Marrocos um documentário estrelado por cantores de fado. Quis o acaso que a ideia estivesse viva na sua cabeça quando de uma pernada pela Baixa lisboeta. Sendo o conceito completamente dadá, o homem certamente abriu um sorriso ao dar com a senhora cega de voz deslumbrante que repicava um triângulo na calçada.
Em 1999, Dona Rosa foi para Marrakesh. Lá, conheceu o empresário alemão Uli Balss e, no ano seguinte, gravou o primeiro de seus três discos. O terceiro, Alma Livre, chegou a ocupar a 7a. posição na Billboard de world music europeia. Deixou Manu Chao para trás. O mundo foi consequência. No último dia de 2008 e no primeiro de 2009, ela deu duas récitas no Concertgebow de Amsterdã, uma das mais prestigiosas salas de concerto da Europa. O empresário Balss estima que Dona Rosa já tenha atingido a razoável marca de 20 mil cds vendidos e ultrapassado as 200 apresentações.
Viajada, Dona Rosa tem birra com os transportes aéreos. "O que mais me chateia são os voos cancelados e as mudanças de avião. Se me pedissem para ir à Austrália de novo, acho que não ia. Às vezes não é só dinheiro que conta, também tem as comodidades", diz. De incômodos, bastam os que ela enfrenta na rua. Pode-se bem imaginar o que seja não saber direito se o céu fechou e a chuva está para cair. O tédio dos quartos de hotel - de três estrelas para cima, por exigência da gravadora - às vezes incomoda. E não é que se coma mal no estrangeiro: "Mas não dá para comparar com os nossos temperos. Nosso comer é um espetáculo."
Hoje em dia, a calçada é meio gosto, meio necessidade, ela diz, admitindo que já pensou em largar. "No começo, quando gravei o primeiro disco. Achei que ia ser melhor, mas acho que já não estão querendo gravar outro. Estou aqui com a sacola cheia de cds mas não vendo quase nenhum." Funciona assim: quando retorna a Portugal com uma boa bolada, Dona Rosa põe um freiozinho na sua lide de rua. "Também depende de quantos cds eu vendi lá fora." Se a venda foi boa, ela aparece para trabalhar só nos fins de semana.
Por ora, quando bate a vontade ou a precisão, ela sai de Almada, cidade na periferia de Lisboa, atravessa o Tejo pela manhã, bota o banquinho entre uma vitrine e outra, pendura um de seus cds na camiseta com alfinetes de segurança, apruma o triângulo e começa a desfiar o repertório. Só para de vez em quando para beber um gole de água ou conferir a letra de uma canção, num braile que ela própria escreve - ganhou o aparelho de presente depois de um show na Alemanha.
A fama a deixou meio deslocada nas redondezas. Ouvem-se maledicências. Colegas de rua não deixam de sugerir que agora Dona Rosa estaria apenas fazendo gênero na calçada. Afinal, ficar por aí dizendo que o destino predileto foi a Áustria, mas que a Finlândia também agradou, não é coisa de quem vive de moedas. E mais: volta e meia, geralmente depois de apresentações, ela aparece com cabelos de salão de beleza. Para agravar, Dona Rosa não revela quanto ganha lá fora. Só fala em valores quando é para reclamar: a gravadora lhe paga 1 euro por cd vendido. Na rua, cobra 15 - "Fifteen euros, que isso eu já aprendi" - e fica com 6.
De uns tempos para cá, a desconfiança em relação à ceguinha amainou. Morador de rua há quinze anos, Vitor Manuel lhe dá o que pode. "Ela até canta bem. Quando posso, ajudo." O jornaleiro Jorge Carrilho não vacila: "Acho que o produtor a passa para trás, não paga o que é devido." Outros julgam que ela tem talento, mas que lhe faltam atributos estéticos: "A mulher, quando ainda é boa, tem um corpo, você sabe. Do contrário, de duas, uma: ou a voz é muito espetacular, como a daquela inglesa que apareceu há uns tempos, ou se está desgraçado", diz Faustino Pinto, frequentador da região. "Falou-se muito dela durante um tempo, apareceu o disco, mas o pessoal já se esqueceu. Sem marketing por trás, a coisa não anda", avalia António Cardoso, vendedor de discos de