Nas primeiras décadas do século xx, Henry Ford foi a cara do progresso industrial. De sua fábrica em Detroit, apelidada de Palácio de Cristal, saíram um milhão de carros do modelo T em 1915. Tendo inventado a linha de montagem e, com ela revolucionado o processo produtivo nas fábricas, Henry Ford instituiu normas igualmente rígidas para a vida comunitária de seus operários.
Dono de florestas no Michigan e de minas no Kentucky e na Virgínia,
ele dispunha de todos os recursos naturais necessários à produção automobilística. Exceto o látex para os pneus. Por isso, em 1927, Ford olhou para o Brasil. Ao invés de comprar a matéria-prima que lhe faltava, adquiriu quase 15 mil quilômetros quadrados de terra na margem do rio Tapajós, perto de Santarém, no Pará. Queria ter o seu próprio seringal na Amazônia. Contratou mão de obra local e fez brotar da selva uma cidade que deveria emular, em todas as minúcias, a vida americana - uma cidade com rua principal de comércio, casinhas enfileiradas, calçadas, praça central, dança de quadrilha e abstinência. Batizou-a de Fordlândia
e imaginou estar plantando uma civilização, além de seringueira.
Deu tudo errado e as ruínas do empreendimento - onde jamais se colheu uma só tigela de látex - foram devolvidas ao governo brasileiro. A seguir, um capítulo da saga: o da revolta dos trabalhadores brasileiros contra os gerentes americanos.
Em dezembro de 1930, os trabalhadores terminaram a pintura do logo da Ford no marco que até hoje distingue Fordlândia: sua torre de 50 metros e a cisterna de 570 mil litros. "Quando se olha do convés de um vapor fluvial", escreveu Ogden Pierrot, adido comercial na embaixada dos Estados Unidos no Rio de Janeiro, "as imponentes estruturas do setor industrial da cidade, com o tremendo tanque de água e a chaminé da usina de força, chamam a atenção e provocam deslumbramento."
Odgen Pierrot prosseguiu:
Isto não é incomum quando se considera que, por vários dias, os únicos sinais de vida que aliviavam a monotonia da viagem eram assentamentos ocasionais, que consistiam de duas ou três cabanas cobertas de palha contra um fundo de selva verde. Uma sensação de incredulidade domina o visitante quando ele vê de repente, projetado à sua frente, um quadro que pode ser considerado uma miniatura de uma cidade industrial moderna. Chaminés expelindo uma pesada nuvem vinda de restos de madeira usados como combustível; uma locomotiva fumegante à frente de vagões carregados de maquinário recém-chegado dos Estados Unidos; guindastes executando movimentos infindáveis para retirar cargas pesadas de balsas atracadas na longa doca; tratores se arrastando pelos morros com implementos para soltar e nivelar a terra, outros puxando cabos presos a troncos de dimensões gigantescas - tudo aumenta o espanto causado nos visitantes que desconhecem o distrito, que não tinham ideia do que foi realizado no breve espaço de pouco mais de dois anos.
Foi trabalhoso encontrar um apito de fábrica que não enferrujasse com a umidade da selva. Ele foi instalado no alto da torre de água, acima das árvores altas, tornando-o visível a mais de 11 quilômetros de distância. O apito era estridente não só para chegar aos trabalhadores dispersos no campo, mas também para ser ouvido do outro lado do rio, onde pessoas que não tinham nada a ver com Fordlândia começaram a pautar os dias pela regularidade da nova sirene. O apito era suplementado por outro ícone do trabalho industrial nas fábricas: os relógios de ponto, colocados em diferentes lugares da plantação, que registravam o momento exato em que cada funcionário iniciava e terminava o dia de trabalho.
Em Detroit, ao chegarem às fábricas da Ford, os trabalhadores imigrantes, mesmo quando vindos do campo, tiveram várias oportunidades de se adaptar aos ritmos da vida industrial. As longas filas em Ellis Island, os relógios pendurados nas paredes de depósitos e salas de espera, os horários relativamente precisos de navios e trens dividiam o arco diário do sol em zonas combinadas para orientar os seus movimentos e mudar a sensação de como os dias se passavam.
Já na Amazônia, a transição entre tempo agrícola e tempo industrial foi muito mais brusca. Antes de chegar a Fordlândia, muitos camponeses que viviam na região estavam habituados a ter a jornada regida por apenas dois relógios, distintos e complementares. O primeiro era o sol, com sua ascensão e queda marcando o início e o fim do dia, seu ápice sinalizando a hora de ir para a sombra e dormir. O segundo era a alternância das estações: a maior parte do trabalho necessário à sobrevivência era feita durante os meses relativamente secos de junho a novembro. Os dias sem chuva possibilitavam a extração do látex, enquanto o recesso das inundações expunha solos recém-fertilizados, prontos para o plantio, e aumentava a concentração dos peixes, tornando sua pesca mais fácil. Mas nada estava escrito em pedra. Chuva excessiva ou períodos prolongados de seca ou calor provocavam ajustes de planos. Antes da vinda da Ford, os trabalhadores do Tapajós viviam o tempo, não o mediam - a maioria deles nunca ouvira sinos de igreja e, muito menos, um apito de fábrica. Era difícil, como disse David Riker - que fazia diversos trabalhos para a Ford, inclusive o recrutamento de mão de obra - "transformar essas pessoas em máquinas de 365 dias".
Por outro lado, a maior parte dos gerentes e supervisores de Fordlândia eram engenheiros, que mediam com precisão tempos e movimentos. Uma das primeiras coisas que os americanos fizeram foi acertar seus relógios com o horário de Detroit, no qual Fordlândia permanece até hoje (apesar de Santarém, cidade próxima, estar uma hora atrás). Eles coçavam a cabeça quando se defrontavam com uma mão de obra que, rotineiramente, descreviam como "preguiçosa". A filha de Archie Weeks se lembra do pai jogando o chapéu de palha no chão mais de uma vez, em sinal de frustração. Impregnados pelo senso de dever, que contrariava o ritmo de vida no Tapajós, e orgulhosamente