Desde 1915, quando estreou O Nascimento de uma Nação?- clássico dirigido por D. W. Griffith?-, e o cinema se tornou entretenimento de massa, várias tentativas são feitas para descobrir a pedra filosofal. Como os alquimistas na Idade Média, a opus magna dos produtores passou a ser transformar metais inferiores em ouro, melhor dizendo, roteiros em filmes lucrativos. Devem restar poucos sábios à procura da transmutação da matéria e do elixir da longa vida. Produtores em busca da equação do sucesso comercial, porém, se multiplicam em progressão geométrica, mesmo o cinema sendo, na definição de René Bonnell em La Vingt-Cinquième Image (inédito no Brasil), uma "indústria de protótipo"?- objetos únicos com características artesanais que costumam fracassar quando fabricados em série.
A fórmula de O Bem Amado, dirigido por Guel Arraes, contém diversos ingredientes que podem parecer promissores: uma marca consagrada em três versões?- telenovela, exibida em 1973, seriado com 220 episódios, de 1980 a 84, e, finalmente, peça reencenada a partir de 2007?-, todas baseadas em Odorico, o Bem-Amado, de Dias Gomes, escrita para o teatro em 1962. Ao texto de origem foram adicionados condimentos escolhidos a dedo: roteiro escrito por Guel Arraes e Claudio Paiva, autor de programas humorísticos; Marco Nanini no papel do prefeito Odorico Paraguaçu; canção inédita de Caetano Veloso; e belas praias, além de outras substâncias menos determinantes.
Essa receita foi capaz de atrair recursos suficientes para produzir O Bem Amado com orçamento generoso?- o valor de captação aprovado foi de 9.827.055,25 reais?-, um dos mais altos do cinema brasileiro. Beneficiadas por incentivos fiscais, empresas estatais e particulares patrocinaram a produção sem correr risco, por não investirem recursos próprios. Apostaram, mais uma vez, acreditando que o resultado reluziria como ouro. E tranquilos, pois ninguém os acusaria de heresia ou satanismo se não acertassem, e nem seriam queimados na fogueira.
Além do canto dos cifrões, a mística do cinema continua a influir, seduzindo profissionais da televisão. Para eles, os filmes preservam uma certa aura que suas produções televisivas não teriam. Querem prestígio e reconhecimento pessoal em setores que, por preconceito, não valorizam seu trabalho. Parecem ignorar que chegam atrasados a uma forma de expressão artística considerada, por muitos, decadente há décadas. Nessas condições, o máximo que conseguem fabricar, de maneira geral, são subprodutos de linguagem híbrida?- televisão filmada que pode ou não obter sucesso comercial. O Bem Amado confirma essa tendência do cinema brasileiro de se tornar uma subsidiária da tevê, produzindo filmes simplórios que se diferenciam pouco uns dos outros.
Passada a Copa do Mundo e as férias escolares, saberemos se a combinação de ambições e talentos feita em O Bem Amado resultou em elixir equivalente ao procurado pelos alquimistas, capaz de atrair milhões de espectadores, justificar o alto investimento, e fazer a felicidade da produtora e de seus sócios. A demora da estreia não parece um bom presságio. Será por falta de confiança nos atrativos comerciais do filme que o lançamento vem sendo adiado desde o final de 2009?
Contrariando a intenção declarada por Guel Arraes de atualizar a novela O Bem-Amado, o que a adaptação para o cinema faz é justamente o contrário. Ao situar o período exato em que a ação se passa?- do dia da renúncia do presidente Jânio Quadros, em agosto de 1961, ao Comício das Diretas Já, em janeiro de 1984?-, a sátira política e de costumes passa a se referir ao passado, não aos nossos dias. Desaparece por completo, dessa maneira, o tênue viés crítico do original de Dias Gomes, que retrata um prefeito provinciano, corrupto e demagogo?- como tantos do período da ditadura e muitos ainda atuantes.
Pelo fato de aludir à conjuntura política do início da década de 70, auge do regime repressivo, e tratar de personagens que não se pautavam pelos ditames da moral e dos bons costumes, a novela foi considerada "desaconselhável para menores de 16 anos" e liberada apenas a partir das 22 horas. Com os meios de comunicação submetidos à censura prévia, a percepção de que o texto tinha um viés crítico incomodou os censores. Para eles, a difusão da sátira de Dias Gomes, no fundo ingênua, parecia representar uma ameaça. Hoje, com a tragicomédia cotidiana da vida política brasileira estampada nos jornais e noticiada pela televisão, as ironias do roteiro perderam qualquer teor transgressivo.
No caso de O Bem Amado, o uso de imagens de arquivo ao longo do filme, em vinhetas que fazem referência a fatos históricos ocorridos há mais de 25 anos, torna duvidosa a possibilidade de o espectador ser induzido a fazer conexões com a atualidade. Eliminadas as referências contemporâneas, o potencial satírico se esvai. Fracassa, assim, a intenção de fazer a cidade de Sucupira representar o Brasil dos nossos dias, explicitada no final, de forma didática, por uma trucagem.
Além de situar a ação do filme em época que parecerá distante para quem tenha menos de 30 anos, O Bem Amado retrata comportamentos tirados do fundo do baú. E o elenco, formado por excelentes atrizes e atores, não consegue despertar interesse pela galeria de personagens estereotipados. Jovem repórter idealista, matador arrependido, irmãs casadoiras, jornalista venal, filha namoradeira, bêbado dizedor de verdades, funcionário exemplar, recém-casado que fez voto de castidade etc.?- são caricaturas conhecidas demais para que, diante delas, se possa esboçar um sorriso. Reincidindo em um conjunto de lugares-comuns, a comédia de costumes acaba resultando meio sem graça.
Projeto eivado de contradições e arcaísmos, O Bem Amado oscila entre a sátira e a paródia, sem se definir por nenhum dos gêneros. Indefinição que parece provir da timidez em tentar ir além da mordacidade original, parodiando o texto de Dias Gomes. Esse caminho é esboçado em algumas sequências, seria rico de possibilidades, e teria sido mais coerente com o trabalho inovador feito por Guel Arraes na televisão, onde tem sido responsável por inúmeros programas de qualidade que rompem o padrão rotineiro. Sendo um dos guardiões da inteligência na Rede Globo, curiosamente, ao filmar O Bem Amado, Guel Arraes se revela