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bastidores de Hollywood
O verdadeiro avatar queira por favor subir ao palco
O escritório dele está cheio de fotos autografadas de atrizes, modelos e deputadas. Golda Meir aparece estirada sobre um tapete de pele de urso
WOODY ALLEN
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Imagino eu que deuses sob forma humana possam muito bem dar as caras de tempos em tempos nesta nossa bolinha de gude azul perdida no espaço, mas duvideodó que algum já tenha rodado por Beverly Hills a bordo de um Thunderbird conversível ostentando a pinta e a panca de um Warren Beatty. Depois de ler Star, a nova biografia do ator, de autoria de Peter Biskind, é impossível alguém não se sentir aplastado pelas estuporantes realizações desse cara. Pense um pouco nos filmes que ele protagonizou, nas bilheterias, nas críticas, nos Oscar e nas tantas indicações ao prêmio que esse goleador intrépido amealhou. Sem falar que ele é um leitor voraz e um gênio do marketing, afiadíssimo também ao teclado de um Steinway, enfronhado na política e um Adônis em tempo integral, aplaudido por toda sorte de gente para quem ele é não apenas um ser das telonas de cinema, mas também do Salão Oval, ou Oral, como ficou conhecido o gabinete reservado a estrepolias com estagiárias na Casa Branca à época em que Bill Clinton andava por lá, nem sempre de braguilha fechada.

O currículo do astro, erigido, em mais de um sentido, nas suas legendárias incursões por camas e outras superfícies receptivas a corpos hollywoodianos incendiados de desejo, é de deixar qualquer Orson Welles babando de inveja. A biografia escrita por Biskind arrola seus inumeráveis casos com mulheres de variados biotipo, qualidade e status social, de atrizes a modelos, de mocinhas da chapelaria a primeiras-damas. Beldades absolutamente endeusáveis faziam fila, salivando de vontade de cair de boca nesse virtuoso dos lençóis. "Quantas mulheres já passaram por suas mãos?", indaga-se o biógrafo. "É mais fácil contar as estrelas no céu... Beatty afirmava que lhe era impossível pegar no sono à noite sem antes fazer sexo. Era parte de sua rotina, como usar o fio dental... Levando-se em conta os períodos em que ele esteve com uma mesma mulher, podemos chegar à cifra de 12 775 mulheres, mais ou menos."

Na qualidade de humilde amante que nem chegou ainda a contabilizar dois dígitos de exemplares do sexo oposto abatidos, vários dos quais só depois de ter-me valido de técnicas subliminares de hipnose, não consigo resistir a imaginar o relato de uma dessas fogosas garotas que ajudaram a conduzir um astro priápico do feitio de um Warren Beatty ao panteão erótico do Livro dos Recordes. Mas vamos deixá-la falar por si mesma:

Nossa, que manhã! Tive de engolir dois Valium para espantar as moscas, borboletas monarcas e vira-bostas que se valiam do meu estômago como espaço para suas manobras aéreas. Era a minha primeira pauta como repórter, e olha só o que me acontece. Saí de casa pensando por que cargas d'água o mais carismático ator de Hollywood, Pino Durango, que foge dos holofotes da mídia feito um Howard Hughes, iria conceder entrevista a uma jovem desconhecida de 19 anos, loira, com o cabelo batendo nos ombros, longas pernas bronzeadas, zigomas da dinastia Ming na cara, portando um frontispício peitoral considerável e fazendo um biquinho labial capaz de provocar tremendos estragos na patota detentora do cromossoma Y.

Se esse Casanova tisnado de sol pensa que vai me faturar, como tem feito com essa miríade de cocotinhas deslumbradas nas quais ele passa o rodo direto, ele vai ver só. Meu objetivo na vida é fazer reportagens sérias, e, francamente, prefiro encarar um Bento xvi ou um Dalai Lama num tête-à-teta. Só que esses figurões pernósticos nunca responderam aos meus pedidos de entrevista, ao passo que o Pino?- que, por coincidência, tinha me visto pelada num ensaio da Playboy sobre as mais bem formadas alunas de jornalismo da Universidade Columbia?- não só me respondeu, como ainda perfumou a cartinha.

Para me certificar de que as demandas em escala industrial da sua libido não viessem a lhe sugerir nenhuma falsa ideia sobre as minhas intenções, fui vestida de maneira conservadora, com uma microssaia nada provocativa, de meia-calça arrastão e uma blusa de muito bom gosto, bem justinha, de tecido transparente sobre meus seios desprovidos de sutiã. Nos meus lábios, que, modéstia à parte, deixariam a beiçorra do jovem Mick Jagger parecendo os lábios chupados da bruxa Memeia, passei apenas um discreto batonzinho rubi fosforescente, sentindo-me assim suficientemente chué para desencorajar qualquer tipo de intimidades da parte do Mister Testosterona. A perspectiva do meu encontro com Pino Durango causou certa apreensão no meu noivo, mas Cornellius sabe que não precisa se preocupar, apesar de saber também que nenhum homem?- ainda mais um quase sósia do Mickey Mouse?- é páreo para o maior garanhão da Playboylândia californiana.

Cheguei finalmente à casa de Pino Durango, em Bel Air, modesta para os padrões da vizinhança, com sua arquitetura clonada do Partenon, acrescida de alguns floreios inspirados na Catedral de Notre-Dame e na Ópera de Sydney. Pino, que não apenas atua, mas também escreve, dirige e produz, tinha acabado de apresentar seu último filme, o já aclamadíssimo Réquiem para um Pidão. Ele desfruta de total liberdade artística e tem sido chamado de gênio tanto pela Variety quanto pela prestigiosa Gazeta do Avicultor. Segundo um mandachuva de Hollywood, "se esse cara quiser botar fogo no estúdio, eu mesmo lhe dou os fósforos". Só que, por ironia, quando Pino tentou fazer isso, eles chamaram a segurança.

Ao estacionar, notei que um punhado de jovens starlets emergia pela porta da frente aos risinhos, exibindo carinhas de radiante plenitude.

"Ainda estou vibrando", dizia a moreninha. "Ele fez um amor totalmente passional comigo, acompanhando-se ao mesmo tempo ao piano."

"Só sei que cheguei cedo", contava a ruivinha. "Me deram um número e esperei a minha vez. Daí, quando me chamaram, fizemos sexo várias e várias e mais várias vezes. Quando dei por mim, estava recobrando a consciência na unidade de convalescença, e uma enfermeira tentava me dar um chá."

Toquei a campainha e o empregado chinês, o Chi Fu Deng, todo esticadinho em seu dólmã branco, me abriu a porta. A casa é mobiliada

 

 
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