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ficção
Nuvens
ANTONIO TABUCCHI
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Nefelomancia, respondeu o homem, é uma palavra grega, nefelo significa nuvem, e mancia, adivinhar, a nefelomancia é a arte de adivinhar o futuro observando a forma das nuvens, porque nesse tipo de arte a forma é a substância, e é por isso que vim passar as férias nesta praia

- Você fica aqui na sombra o dia inteiro, disse a menina, não gosta de entrar no mar?

O homem fez um sinal vago com a cabeça, podia parecer um sim ou um não, mas não disse nada.

- Posso tratá-lo por você?, perguntou a menina.

- Se não me engano, já está tratando, disse o homem sorrindo.

- Na minha classe, chamamos até os adultos de você, disse a menina, alguns professores deixam, mas meus pais me proibiram, dizem que é coisa de gente mal-educada, o que o senhor acha?

- Acho que estão certos, respondeu o homem, mas pode me chamar de você, não conto para ninguém.

- Não gosta de entrar no mar?, insistiu ela, acho isso singular.

- Singular?, repetiu o homem.

- Minha professora explicou que não se pode usar maravilhoso para tudo, que em certos casos se pode dizer singular, eu disse maravilhoso só por dizer, porque para mim nadar nesta praia é mesmo singular.

- Ah, disse o homem, concordo, também acho maravilhoso, até singular.

- Tomar sol também é maravilhoso, continuou a menina, nos primeiros dias tive de usar proteção solar 40, depois passei para 20 e agora posso usar o bronzeador dourador, aquele que faz a pele cintilar como se nela houvesse estrelinhas douradas, dá pra ver?, mas por que o senhor é tão branco?, chegou há uma semana e fica sempre debaixo da barraca, nem do sol o senhor gosta?

- Acho o sol maravilhoso, disse o homem, juro, acho que tomar sol é maravilhoso.

- Tem medo de se queimar?, perguntou a menina.

- O que você acha?, respondeu o homem.

- Acho que tem medo de se queimar, mas quem não começa devagarinho nunca fica bronzeado.

- É verdade, confirmou o homem, me parece lógico, mas será que é obrigatório se bronzear?

A menina refletiu.

- Obrigatório propriamente não é, nada é obrigatório, exceto as coisas obrigatórias, mas se a pessoa vem à praia, não entra no mar e não se bronzeia, para que vir até aqui?

- Sabe de uma coisa?, disse o homem, você é uma menina lógica, tem o dom da lógica, e isto é maravilhoso, acho que hoje o mundo perdeu a lógica, é um grande prazer encontrar uma menina com lógica, você me concede a honra de conhecê-la?, como se chama?

- Me chamo Isabella, mas os amigos íntimos me chamam de Isabel, com ênfase no e, não como para os italianos, que dizem Isabel com ênfase no i.

- Por que, você não é italiana?, perguntou o homem.

- Claro que sou italiana, contestou ela, italianíssima, mas é importante o nome que meus amigos me dão, porque na televisão sempre dizem Mánuel ou Sebástian, eu sou italianíssima como o senhor e talvez ainda mais, mas gosto de línguas e sei até o hino de Mameli[1] de cor, este ano o presidente da República veio visitar nossa escola e nos falou da importância do hino de Mameli, que é nossa identidade italiana, foi preciso tanto tempo para construir a unidade de nosso país, não gosto nada, por exemplo, daquele senhor da política que pretende abolir o hino de Mameli.

O homem não disse nada, mantinha as pálpebras entreabertas, a luz era intensa e o azul do mar se confundia com o do céu, como se tivesse engolido a linha do horizonte.

- Talvez não tenha entendido a quem me refiro, disse a menina rompendo o silêncio.

O homem não falou, a menina pareceu hesitar, com um dedo rabiscava na areia.

- Não gostaria que o senhor fosse do partido dele, continuou, tomando coragem, em casa me ensinaram que é preciso respeitar sempre as opiniões alheias, porém a opinião daquele senhor não me agrada, você compreende?

- Perfeitamente, disse o homem, é preciso respeitar as opiniões alheias, mas sem desrespeitar as próprias, sobretudo não desrespeitar as próprias, e por que não gosta daquele senhor?

- Bem..., Isabella pareceu hesitar. Além do fato de que, quando fala na tevê, ele sempre tem uma espuma branca nos cantos da boca, mas isso seria o de menos, ele diz um monte de palavrões, escutei com meus próprios ouvidos, e se ele faz isso, me pergunto por que brigam comigo quando faço a mesma coisa, mas por sorte o presidente da República é mais importante que ele, de outro modo não seria presidente da República, e ele nos explicou que temos de respeitar o hino de Mameli, temos de respeitá-lo e cantá-lo como canta a seleção nacional nos campeonatos do mundo, com a mão no coração, na escola cantamos junto com o presidente, líamos nas cópias distribuídas pela professora, mas ele nem lia, sabia de cor, eu o acho maravilhoso, você não acha?

- Praticamente singular, confirmou o homem. Revirou a sacola ao lado da espreguiçadeira, pegou um frasco de vidro e enfiou na boca um comprimido branco.

- Estou falando demais?, perguntou ela, em casa dizem que falo demais e acabo incomodando os outros, estou incomodando?

- De jeito nenhum, respondeu o homem, as coisas que você fala inclusive me parecem singulares, continue, por favor.

- E depois o presidente nos deu uma lição de história, porque, como o senhor deve saber, na escola não se estuda a história moderna, os melhores professores conseguem chegar, ao final da oitava série, no máximo até a Primeira Guerra Mundial, mas o normal é pararem em Garibaldi e na unificação da Itália, mas nós aprendemos um monte de coisas modernas, porque a professora foi ótima,

 

 
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